EUA e o fator Cazaquistão podem evitar guerra entre Rússia e Ucrânia? Entenda

 

Governo Vladimir Putin mostrou força no Cazaquistão e mantém ameaças à Ucrânia
Governo Vladimir Putin mostrou força no Cazaquistão e mantém ameaças à Ucrânia. Reuters. Marcelo Tuvuca colaboração para a CNN
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Em meio a uma semana de conversas entre o governo Vladimir Putin com os Estados Unidos e a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), a tensão permanece na fronteira da Rússia com o leste da Ucrânia. O surgimento de uma crise no Cazaquistão e a possibilidade de algum tipo de acordo entre as potências, no entanto, reduziram a chance de o conflito escalar para uma guerra.

No fim do ano passado, a Rússia posicionou mais de 100 mil soldados na fronteira ucraniana, alegando que se tratava de uma movimentação militar normal das tropas dentro de seu território. A Ucrânia, com apoio dos Estados Unidos e da Otan, acusou os russos de planejarem uma invasão, quase oito anos depois de o governo Putin anexar a península da Crimeia.

Enquanto a crise ucraniana crescia, o governo do Cazaquistão, vizinho e aliado da Rússia, enfrentou uma insurgência nas ruas após um súbito aumento no preço dos combustíveis.

Nos primeiros dias de 2022, manifestantes chegaram a tomar conta do aeroporto de Almaty, a maior cidade do país, levando o presidente Kasim-Yomart Tokayev a solicitar ajuda da OTSC (Organização do Tratado de Segurança Coletiva), aliança regional de defesa liderada pela Rússia. Com o envio de cerca de 2.500 soldados da organização, os russos contribuíram para a estabilização dos protestos, pelo menos por enquanto.

Apesar do crescimento da violência no Cazaquistão em paralelo à tensão na Ucrânia, especialistas observam a crise como uma oportunidade para Vladimir Putin de enviar um recado sobre a força da Rússia na região – sem que, para isso, precise atravessar novamente a fronteira com a Ucrânia.

Além disso, o Kremlin também pode fazer algum tipo de acordo com a Otan e os EUA que atenda às expectativas de que suas fronteiras estejam mais protegidas da aliança ocidental. O governo Putin ainda busca evitar um pacote de sanções graves que atingiriam em cheio a economia do país.

CNN ouviu os especialistas Leonardo Paz, cientista político do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da Fundação Getúlio Vargas (FGV); Alexandre Hage, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp); e Vicente Ferraro, mestre em Ciência Política pela Higher School of Economics de Moscou e membro do Laboratório de Estudos da Ásia da Universidade de São Paulo, para entender os possíveis desdobramentos dessas negociações e o peso, para o Brasil, de uma eventual visita oficial de Jair Bolsonaro a Moscou, já programada, durante esse período tenso na região.

Regiões declaram independência da Ucrânia

O afastamento entre Rússia e Ucrânia, ex-repúblicas da União Soviética, se intensificou entre 2013 e 2014, com a queda do presidente ucraniano Viktor Yanukovych e a ascensão de um grupo favorável a uma eventual entrada do país na União Europeia e na Otan.

O grande conflito territorial, hoje, é sobre as regiões de Lugansk e Donetsk, com grande presença de russos. Ambas declararam sua independência da Ucrânia após os protestos em 2014 – ao contrário da Crimeia, no entanto, não houve invasão de tropas russas para garantir a separação das regiões.

Segundo a Ucrânia, no entanto, o acordo de cessar-fogo assinado em Minsk em 2015 vem sendo constantemente desrespeitado pelos russos. O Kremlin, por sua vez, nega que esteja planejando uma invasão no leste e protesta contra a parceria da Otan com a Ucrânia – apesar de o país não ser um membro da organização, recebe treinamentos, armamentos e apoio da aliança ocidental.

Segundo o professor Alexandre Hage, os russos consideram, historicamente, a Ucrânia não como um Estado nacional, soberano, e sim como uma “fronteira próxima”. “Eles não entendem o conceito de fronteira como nós entendemos. Para eles, não se trata exatamente de outro país, mas sim de um território que é historicamente ligado à Rússia. Não é maldade ou ganância; é um elemento que está incorporado há séculos na cultura russa”, explica Hage.

A situação começou a se deteriorar no fim da década de 1990, quando a Otan passou a abrigar diversos países que fizeram parte do Pacto de Varsóvia, antiga aliança militar liderada pela União Soviética. Uma eventual entrada da Ucrânia fez crescer o protesto de Moscou com relação ao avanço ocidental.

“A Rússia não considera que a sua segurança começa na Europa Oriental, e não em sua fronteira no leste. Toda manifestação norte-americana, e da Otan, de estender as forças militares nesse território é vista pelos russos como uma agressão”, diz Alexandre Hage.

A justificativa para a guerra

Os especialistas entendem que um novo conflito militar acontecerá se houver algum tipo de pretexto que justifique a invasão russa. “Uma campanha ucraniana contra os separatistas em Lugansk ou Donetsk ou uma tentativa de retomar a Crimeia seriam motivos para acender essa fagulha. Mas não vejo a Ucrânia com qualquer interesse de fazer isso”, afirma Leonardo Paz.

“O leste da Ucrânia tem um sentimento pró-Rússia, mas não há uma demanda por invasão como houve na Crimeia, por exemplo. Não acredito que o Putin comandaria uma invasão nesse cenário, porque ele sabe os limites do que pode ganhar ou perder”, alerta Vicente Ferraro.

Entre os ganhos que o líder russo espera conseguir é que a Otan retorne a seu status pré-1997, retirando armamentos e sistemas de defesa de áreas próximas às suas fronteiras. O Kremlin também exige que a Otan interrompa sua política de expansão, mas a aliança ocidental comandada pelos Estados Unidos rejeita as demandas russas.

“Naturalmente, a Rússia faz uma grande lista de exigências e espera conseguir algum ganho, algo normal nesse tipo de negociação”, diz o professor Leonardo Paz.

Ao mesmo tempo, ele enxerga a possibilidade de que os dois lados cheguem a algum tipo de acordo.

“Alguns analistas norte-americanos defendem a ideia de transformar a Ucrânia em um território neutro, sem adesão à União Europeia ou à Otan, e que ninguém mexeria na região”, diz ele.

“Aos poucos, o conflito pode ‘desescalar’. Haveria algum impasse em relação à Crimeia e regiões separatistas, mas poderia haver um acordo de autonomia para esses territórios, como acontece em outros lugares do mundo. É um caminho do meio, que me parece um pouco ambicioso”, analisa Paz.

Para Vicente Ferraro, os EUA podem assumir algum compromisso, mesmo que informalmente, de que a Ucrânia não ingressará na Otan num futuro próximo.

“Se a Ucrânia entrar na Otan, isso significa que, caso haja algum tipo de invasão russa, a aliança precisará responder militarmente. Ou seja, haveria uma guerra mundial”, afirma o pesquisador, lembrando que a região da ex-União Soviética é marcada por constantes conflitos geopolíticos.

Mesmo assim, Ferraro diz que o acordo não será admitido publicamente. “Se o [Joe] Biden [presidente dos EUA} fizesse isso, ele passaria a imagem de que está cedendo ao Putin e fazendo uma divisão oficial de áreas de influência. Mas algum acordo deverá surgir a partir das conversas”, diz.

Veículos blindados da Rússia em movimentação na cordilheira de Opuk, na Crimeia / Sergei Malgavko/TASS/Getty Images

Sanções econômicas mais duras

Há consenso entre os especialistas, também, de que dificilmente os Estados Unidos se aventurariam em uma defesa militar do território ucraniano. Mas as principais armas atuais do Ocidente contra os russos – as sanções econômicas – estão mais severas em relação ao período de anexação da Crimeia.

“O conjunto de sanções de 2014, que atingiu alguns comandantes russos e bloqueou acesso a bancos do país, atrapalhou Moscou, mas não trancou a economia. Agora, o Biden quer trancar a economia”, resume Leonardo Paz.

A principal ação seria o bloqueio da Rússia na Swift, cooperativa global com sede na Bélgica que regulamenta as transferências internacional de valores. “Isso teria um impacto gigante”, diz o professor da FGV.

“Há outras medidas, como a execução de embargos contra empresas que negociarem com a Rússia na área de defesa, que também pode prejudicar bastante a cadeia global russa. É parecido com as sanções dos EUA contra o Irã, e os iranianos acabaram capitulando”, acrescenta.

O especialista, no entanto, não acha que o pacote em si fará a Rússia capitular e desistir de seus objetivos de defesa na região. “Mas é um pacotão que machuca bastante”, sintetiza.

“Como efeito adverso, essas sanções podem acelerar o projeto de China e Rússia de criar um novo sistema como o Swift, que também atrapalharia o Ocidente”, acrescenta.

A força russa no Cazaquistão

O “fator Cazaquistão” surgiu como surpresa no contexto dos conflitos envolvendo a Rússia e seu entorno. A ex-república soviética, localizada na Ásia Central, gera preocupações específicas em Moscou: é o segundo maior país do antigo bloco comunista, em área, e faz a maior fronteira territorial com a Rússia.

Além disso, o Cazaquistão abriga o Cosmódromo de Baikonur, base de lançamento das missões espaciais tripuladas da Rússia, e 20% de sua população é etnicamente russa.

“Não há nenhum interesse de Moscou, e da China, que o Cazaquistão seja tragado para uma guerra civil”, resume Alexandre Hage. “O Putin se preocupa, sim, com essa fronteira, mas vai dosar a participação russa ali, porque o leste europeu pesa mais”, diz o professor da Unifesp.

A imediata contribuição da Rússia para conter os protestos no Cazaquistão, no entanto, pode ajudar tanto a reduzir as tensões na fronteira sul quanto passar um recado para os outros países da região.

Protestos em cidades como Almaty desestabilizaram o governo do Cazaquistão / Reuters/Pavel Mikheyev (06/01/2022)

Segundo Leonardo Paz, foi uma oportunidade de Putin mostrar que ele agirá, “de maneira rápida e decidida”, diante de qualquer ameaça nas áreas de influência russa.

“Em um dia e meio de conflito no Cazaquistão, ele enviou alguns milhares de soldados e assegurou a segurança de infraestruturas críticas, como o aeroporto, prédios públicos, o fornecimento de eletricidade. Ele deixou claro que não está para brincadeira”, avalia Paz.

Segundo o cientista político da FGV, a reação de Putin mostrou, de um lado, o apoio irrestrito ao governo do Cazaquistão e sinalizou, do outro, o que pode acontecer com a Ucrânia se as tensões na fronteira leste escalarem. “Em resumo, foi um episódio onde ele demonstrou força.”

Apesar disso, o especialista diz que a situação do país está “controlada, mas não resolvida”. “A situação econômica do Cazaquistão tem piorado desde 2014, e essas manifestações contra o aumento dos combustíveis foram sintomáticas. É possível que, em um curto espaço de tempo, ocorram novos protestos violentos”, diz Paz.

A visita de Bolsonaro a Putin

Em dezembro, o presidente Jair Bolsonaro confirmou ter aceitado o convite do governo russo para visitar o país neste ano. Segundo o próprio Bolsonaro, a visita seria uma oportunidade de o Brasil “aprofundar o relacionamento com a Rússia” e “alavancar” a economia. Os dois países são membros do Brics, bloco que inclui Índia, China e África do Sul.

Segundo o Itamaraty, a visita acontecerá em fevereiro, com detalhes ainda em tratativas. O encontro, afirma o governo brasileiro, “constituirá oportunidade para fortalecer o diálogo no âmbito da parceria estratégica entre os dois países e para dinamizar a agenda de cooperação bilateral em áreas de interesse mútuo”.

“Brasil e Rússia são parceiros de longa data e compartilham valores comuns como o primado da soberania, o respeito ao direito internacional e à carta das Nações Unidas”, afirma o Itamaraty na nota envida à CNN.

Em conversa na última segunda (10), o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, cobrou do chanceler brasileiro, Carlos França, “a necessidade de uma resposta forte e unida contra uma eventual agressão da Rússia na Ucrânia”, segundo o comunicado oficial do órgão norte-americano.

O Ministério das Relações Exteriores brasileiro, por sua vez, confirmou que o assunto Ucrânia foi abordado, mas citou apenas que os chefes da diplomacia “trocaram impressões e expressaram suas respectivas posições nacionais.” O Brasil também defendeu que a resolução de 2015 do Conselho de Segurança da ONU e o Acordo de Minsk, que preveem medidas de “desescalada”, sejam cumpridos.

O fato de o Itamaraty evitar uma menção direta à Rússia reforça a posição de neutralidade da diplomacia brasileira, como também aconteceu na época da anexação da Crimeia.

Segundo Vicente Ferraro, uma visita oficial de Bolsonaro ao país, mesmo depois da pressão norte-americana, não deve alterar significativamente as relações brasileiras com os EUA.

“Acho difícil que o Brasil altere seu posicionamento oficial quanto à questão ucraniana. Além disso, a Rússia anunciou formalmente que não pretende invadir a Ucrânia. Agora, caso de fato ocorra uma invasão, a pressão norte-americana poderá ser intensificada, elevando os custos do Brasil em não se posicionar. Nesse cenário, poderia haver alguma mudança”, diz Ferraro.

Para Leonardo Paz, a pressão de Blinken é condizente com os objetivos norte-americanos de conquistar adesões e aumentar a pressão sobre a Rússia. “Se ele coloca o Brasil do lado dele, é um ganho político muito forte, porque os EUA mostram que, mesmo dentro dos Brics, há críticas em relação à Rússia”, afirma.

“Mas, independentemente do que aconteça na Ucrânia, inclusive em cenário de guerra, acredito que a posição do Brasil vai se manter na retórica, pedindo que as partes encontrem o diálogo”, resume.

Segundo Leonardo Paz, a neutralidade do Brasil e uma eventual visita oficial de Bolsonaro não vão alterar o equilíbrio da balança nesse conflito da Rússia com o Ocidente. “A viagem é única e exclusivamente para o Bolsonaro tirar uma boa foto com o Putin e dizer que não está isolado no mundo”, avalia Leonardo Paz.

Ainda na nota enviada à reportagem, o Itamaraty enfatiza que a Rússia é um dos 15 maiores parceiros comerciais do Brasil, com um intercâmbio de US$ 7,3 bilhões em 2021, o maior valor na última década.

“Há margem para ampliar e diversificar a corrente comercial, considerando-se o porte e sofisticação das duas economias, que estão entre as maiores do mundo”, afirma o governo.

O Itamaraty ainda cita o interesse em atrair investimentos de grupos russos no país. “A Rússia conta com grandes grupos empresariais, capitalizados e em crescente internacionalização, com reconhecida capacidade técnica e tecnológica em setores importantes para o Brasil, tais como infraestrutura logística, portos, ferrovias, mineração e energia.”

Fonte: CNN Brasil

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