Setembro Verde: recusa da família ainda é principal causa da não doação de órgãos, alerta especialista

 


O mês de setembro é dedicado também à conscientização sobre a doação de órgãos, por meio da campanha Setembro Verde, uma vez que a negativa familiar ainda é a principal causa para os baixos números de captação em todo o país.

Segundo dados da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia, de janeiro a agosto deste ano, foram contabilizadas 68 doações de múltiplos órgãos e 255 de córnea. No mesmo período de 2020, foram realizadas 85 doações de múltiplos órgãos e 288 de córneas.

Ainda conforme a Sesab, em 2021, 248 pacientes receberam transplantes de córnea, 26 de fígado e 147 de rim. A fila de espera, no momento, é de 22 pessoas para transplante de fígado, 1.049 de rim e 893 de córneas.

De acordo com Aline Lima, enfermeira que trabalha na Organização de Procura de Órgãos, que que é subordinada à Central de Transplantes, sediada no Hospital Geral Clériston Andrade, informou que em 2021, a entidade realizou a captação de sete órgãos, sendo quatro no HGCA e três na regional de Feira, que vai de Alagoinhas até Santo Antônio de Jesus.

Em 2020, segundo ela, ocorreram oito captações no total. Os números de 2020 e 2021 estiveram muito aquém dos números registrados em 2019, quando 16 captações foram realizadas. Isso mostra o impacto que a pandemia trouxe para a doação de órgãos.

“Fomos impactados pelas questões da covid, desde a permanência da família na unidade para acompanhamento do protocolo, muitos pacientes com PCR positivo e aí a gente não pode proceder com a doação porque é contraindicação absoluta a covid, e no início a gente teve também a resposta do tempo de laudo de resposta do PCR, porque o Lacen foi muito demandado e teve a demora em relação aos laudos de dois, três dias, e as famílias ansiosas por enterrar seu ente querido preferiam não realizar a doação”, informou Aline Lima.

A enfermeira ressaltou que a finalidade da OPO é justamente a busca ativa dos órgãos, validação de protocolos e protocolo para morte encefálica, acolhimento familiar, educação permanente, captação, como também da distribuição e entrega desse órgão devidamente acondicionado e lacrado para a Central de Transplantes, para encaminhamento aos hospitais transplantadores.

“Toda vez que alguém diz sim, tira da fila do transplante até oito pessoas. Toda vez que alguém diz sim dá oportunidade dessa família ser consolada e de pelo menos três famílias serem conquistadas com amor pela ressignificação da dor do luto pela entrega da doação de órgãos. É o momento de a gente fazer o bem, sem olhar a quem. Um sim configura um ato de amor e generosidade. O tema da campanha esse ano é ‘Não basta querer, tem que falar’, porque a doação só pode ser realizada depois que um ente querido consente essa doação”, pontuou.

Negativa familiar

De acordo com o cirurgião cardiovascular André Guimarães, que atua em hospitais de Feira de Santana, setembro foi escolhido pelo Congresso Nacional e o Ministério da Saúde, para levantar a discussão sobre a importância da doação de órgãos dentro do seio familiar. Apesar dos impactos trazidos pela pandemia, a recusa dos parentes de primeiro grau continua sendo o maior impeditivo para que mais pessoas sejam doadoras.

Cirurgião cardiovascular André Guimarães (Foto: Ney Silva/Acorda Cidade)
 

“É um momento de muita dor pela perda de um ente querido e para a pessoa naquele momento dizer um sim é algo que não é tão simples. Às vezes, a pessoa está sofrendo e quer enterrar logo o parente, e tem que aguardar ainda a retirada do órgão. É uma discussão que precisa ser feita no seio familiar. Uma das maiores causas dos baixos números de doações ainda é a recusa da família, e muitas vezes quando em vida a pessoa avisa que quando morrer quer doar o órgão, a família já fica sensibilizada. Então o Setembro Verde vem para fazer essa discussão”, destacou o médico.

Segundo ele, há filas de espera em todo o Brasil, e em Feira de Santana não é diferente. Essa fila segue uma ordem estadual.

“A OPO rege diversos hospitais de Feira de Santana e organiza esse fluxo. Toda vez que tem um diagnóstico de morte encefálica ele acompanha o processo, pra que não haja nenhum erro. Uma vez acontecendo e comunicada à família, é feita a conversa da possibilidade de doação ou não. Acontecendo a doação, eles enviam uma equipe captadora de órgãos e a depender da sua logística e de onde está esse paciente, esse órgão é destinado. E aqui em Feira se fazem transplantes”, explicou André Guimarães.

Ele também ressaltou ainda que a doação de órgãos é um ato de amor ao próximo. “Tem pessoas que ficam anos em filas de transplantes ou meses internadas em hospitais, pacientes com disfunção hepática, doenças graves, pacientes que ficam meses ou anos internados com doenças cardíacas, pacientes que não enxergam e podem voltar a enxergar com doença de córnea. Temos que discutir isso no nosso seio familiar e lembrar que após a morte o órgão não servirá mais pra ele.”

Protocolo de morte encefálica

O médico cirurgião André Guimarães esclareceu também sobre o protocolo para captação de órgãos no Brasil. Ele explicou que é feita quando um paciente recebe o diagnóstico de morte encefálica.

“A doação de órgãos ocorre quando um paciente tem o diagnóstico de morte encefálica, que segue um protocolo muito sério e rígido no Brasil. Uma vez tendo a morte do cérebro e alguns órgãos funcionando, com a possibilidade de serem doados, caso a família aceite a doação, pode ser feita, após autorização prévia da família, a retirada desses órgãos para serem colocados em outras pessoas que estão em filas aguardando esse órgão, como pacientes que têm disfunção renal e o rim já não funciona mais, pacientes que ficam meses em filas de diálise, e se uma pessoa morre e é compatível com ele e a família aceita, esse rim pode ser doado”, informou.

Os órgãos mais comuns de serem doados, segundo ele, são a córnea, coração, pulmão, intestino e pâncreas. No entanto, alguns pacientes que tenham diagnóstico de morte encefálica, mas tiveram processos infecciosos, alguns tipos de câncer, esses não podem doar. Existem alguns protocolos que são seguidos e que excluem alguns doadores.

“Fora isso, qualquer pessoa pode doar, até as crianças. Antigamente existia uma lei, que poderia colocar na carteira de identidade, porém essa lei não existe mais. É preciso que um parente de primeiro grau autorize.”

Fonte: Acorda Cidade

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