Folheteiro e cordelista, Jurivaldo Alves reforça o papel da literatura de cordel para a história Feira de Santana

 


Acorda Cidade - Divulgada em folhetos, escrita em forma de poesia e acompanhada de xilogravuras, a literatura de cordel busca manter vivas a história e a tradição cultural brasileira. Em Feira de Santana, esse segmento literário também é utilizado, principalmente em escolas, universidades e eventos culturais para recontar de forma bem humorada os fatos históricos sobre a origem da nossa cidade, lendas do passado e casos curiosos que permeiam o imaginário popular.


Aqui no município, o cordel tem como principal incentivador o folheteiro e cordelista Jurivaldo Alves. Nascido em Baixa Grande, em 1946, desde a adolescência ele se tornou um entusiasta do cordel. De fala fácil e entusiasmada, ele buscou relembrar para o Acorda Cidade alguns passos da sua caminhada.

00:00/01:00

Foto: Patrícia Oliveira

“Como cordelista tenho 20 anos, agora como folheteiro já estou chegando aos 50. E aí vem a diferença do cordelista, o folheteiro e o repentista. O cordelista é aquele que pensa, escreve e corrige, e o repentista é aquele que faz o verso na hora. No meu caso, eu sou cordelista de bancada”, explicou.

A relação de Jurivaldo com a arte do cordel vem desde a infância. Ele conta que não sabia ler, mas costumava adquirir alguns exemplares de cordéis nas feiras livres e pedia a outras pessoas que recitassem os versos para ele, que decorava e passava adiante por onde ia.

“Já na minha infância lá na minha cidade, como adolescente, eu comprava o cordel na mão de mascates, que vendiam no meio da rua. E eu pagava a alguns jovens balconistas que sabiam ler e eles ficavam lendo o cordel e passei a decorar o cordel e ser conhecido da minha região, na zona rural. No período da bata do milho, do feijão e da farinhada, eles me chamavam pra contar umas histórias, como a ‘História do pavão misterioso’ e ‘A chegada de Lampião no inferno’, que é o cordel mais vendido até hoje no Brasil e no mundo. Tinha também ‘Juvenal e o dragão’, ‘Zé Pretinho’, que são os clássicos do cordel.”

Aos 17 anos, o folheteiro se mudou para Feira de Santana, e logo após conheceu o cordelista Antônio Alves da Silva, que veio a ser seu mestre na literatura de cordel.

“Quando eu cheguei aqui em Feira, fui trabalhar em uma pensão e conheci Antônio Alves, ele estava escrevendo um livro, passei a vender alguns e depois ele foi embora. Depois fui ser folheteiro de Rodolfo Cavalcante, na década de 60 até 73. Vivi uma temporada e me casei. Quando me casei a família achou que eu não iria conseguir sustentar e arranjaram um emprego pra mim, então fui ser tratorista em uma fazenda. Mas com pouco tempo depois que eu voltei e guardei a mala de cordel debaixo da cama, a mulher achou de limpar e jogou fora. Tem cordel que hoje eu pago 100 reais e não encontro, que são clássicos”, relembrou aos risos.

Em meio a idas e vindas seja trabalhando para empresas ou mantendo seu próprio negócio, Jurivaldo Alves nunca deixou de lado sua paixão pelo cordel. Depois de trabalhar como camelô, motorista de caminhão, e montar uma empresa de garrafadas em Capim Grosso, na segunda metade da década de 90, voltou para Feira de Santana com a família e passou novamente a atuar como folheteiro.

“A juventude naquela época não conhecia mais o cordel, pois não tinha um representante. Então abandonei o emprego e avistei em uma estante do meu filho um pacote com 50 cordéis. No outro dia iria acontecer a Romaria de Milagres, e quando eu cheguei na feira, tinha gente que saía chorando. Eu senti a falta de um folheteiro no meio da rua e comecei vendendo. Por sorte, coisa do destino, nesse período fiz uma versão de um cordel de Antônio Alves e foi esse cordel que me tornou um cordelista, a partir dos anos 2000. É uma história importante, porque foi uma história de Feira de Santana.


Importância para a cultura local

Foto: Assivaldo Santos

Para Jurivaldo Alves, a literatura de cordel possui um papel muito importante na cultura popular, pois é através dela que os fatos que marcaram o desenvolvimento da cidade poderão ser sempre relembrados e recontados de geração a geração.

“É a divulgação. Tem muitas pessoas que não sabem quem foi Lucas da Feira. Eu faço parte do Cariri Cangaço, que é o maior encontro de cangaceiros do Brasil, e a turma do Cariri, lá no Rio Grande do Norte, sabe mais a história de Lucas da Feira do que os feirenses. Quando eu escrevi o cordel de Lucas da Feira veio uma professora que não conhecia e passou a transmitir o conhecimento para os alunos e filhos, através desse cordel.”

Uma das coisas que mais o marcou foi há dois anos, quando retornou para sua cidade natal e lá foi homenageado. “Eu levei 25 anos sem ir em minha cidade, e um dia uma professora vendo minha biografia me disse que iria ter a feira literária em Baixa Grande e eu fui homenageado de noite na Câmara de Vereadores. Superlotou. Mas também teve outros momentos, como quando uma pesquisadora veio da França pra me entrevistar; a Feira do Livro, que eu fui que dei a ideia de ter a Praça do Cordel, e todo ano sou homenageado e também os pesquisadores e jornalistas dizem que eu resgatei o cordel. Isso pra mim é uma emoção.”

O cordelista se emociona ao falar do aniversário de Feira de Santana, celebrado neste 18 de setembro, quando completa 188 anos de emancipação política. No entanto, ele sente que ainda é necessário uma divulgação maior do cordel no município, com maior ênfase no aniversário da cidade.

“O aniversário de Feira é uma alegria, mas fico triste por Feira não fazer uma divulgação maior do cordel. Sou convidado para tantos eventos em outras cidades, e fazem uma festa imensa, e fico triste, pois em Feira de Santana não tem uma homenagem melhor no dia do aniversário. Eu já escrevi próximo de 60 cordéis. E hoje nosso trabalho está sendo bem aceito nos colégios, nas universidades, nas bienais, vou a vários eventos no Brasil. Só não estou viajando agora por conta da pandemia, senão eu estava percorrendo três estados com o Cariri Cangaço.”

Mestre na literatura

O cordelista falou ainda sobre a sua inspiração para fazer os cordéis. “A inspiração surge. Tem aquele que a gente inventa e aquele que surge, como agora a pandemia, daqui a 10 ou 15 anos, o povo vai saber o que foi através do cordel. Hoje tem muitos doutores em cordel, mas como não ganha dinheiro, a inspiração vem pelo prazer de contar as histórias. Agora eu estou escrevendo um infantil ‘A Onça e o Macaco’, para lançar na Feira do Livro. É uma terapia e diversão, mas pra mim também é fonte de renda, que hoje eu sobrevivo do cordel.”

Foto: Patrícia Oliveira

Atualmente Jurivaldo Alves mantém seu espaço literário no Mercado de Arte Popular de Feira de Santana. É lá que ele guarda todo o seu acervo histórico, desde os mais antigos e clássicos até as criações mais recentes. Onde guarda também suas próprias memórias e acontecimentos que marcaram a sua trajetória como folheteiro e cordelista.

“Primeiro trabalhei 10 anos em frente ao Mercado de Arte, e aí a prefeitura fechou para reformar e me botou no mercado provisório. Depois me colocou aqui. Tenho aqui a ArtMap, que me dá um apoio imenso, e dona Graça Cordeiro, que fazem um esforço excelente para trazer gente de fora pra vir conhecer o meu trabalho aqui no mercado. E pra mim é uma fonte de renda, mas também uma nova família que eu construí em Feira já há quase 6 anos.”

Vida e obra em um documentário

Foto: Patrícia Oliveira

A vida e trajetória de Jurivaldo Alves também foi descrita em seu documentário ‘O Folheteiro’, que está disponível em seu canal no YouTube. A obra foi lançada no dia 29 de abril e tem como missão contar sobre a relação do protagonista com os cordéis até os dias atuais.

O produtor de vídeo Assivaldo Santos, que participou da missão de retratar a vida e obra de Jurivaldo, contou em entrevista ao Acorda Cidade sobre a emoção de ter participado de todo o processo de produção.

“A ideia surgiu através de uma conversa entre amigos, diante de uma oportunidade de ajuda que surgia no momento cultural local e sabendo da relevância que o folheteiro tem em suas histórias ao longo desses anos e que ali estaríamos protagonizando um filme de uma importância muito grande para nossa cidade. Durante as etapas de produção foi enriquecedor todo o trabalho. Quando iniciamos a pesquisa para produção do roteiro, percebemos o nível do conteúdo grandioso que ele tem na sua bagagem e aí creio que limitar todo esse conteúdo foi o que mais chamou a minha atenção, na montagem e pós-edição deste documentário”, afirmou.

Além do protagonista, a produção contou com o próprio Jurivaldo como coordenador geral, com o apoio de Patrícia Oliveira, filha dele e também cordelista por incentivo do pai, na assistência técnica junto com a publicitária Maristela Freire, a qual revisou também a parte textual do roteiro.

“É um documentário que tem 25 minutos de uma história muito bonita. Fomos em Baixa Grande, a cidade onde Jurivaldo iniciou a sua vida e dali a gente traz com ele toda uma história de vida até a chegada dele em Feira de Santana, e hoje ele tem no Mercado de Arte seu ponto comercial onde agrega uma infinidade de conteúdos de cordéis”, relatou Assivaldo.

Na opinião dele, Jurivaldo Alves, assim como muitos outros nomes da cultura popular de Feira de Santana, tem uma importância muito grande, por se manter como folheteiro nos tempos atuais.

“A gente sabe que já não existe em nenhum lugar ninguém fazendo o papel que ele faz até hoje nas feiras, eventos e escolas. Ele leva a nossa cidade a um patamar cultural riquíssimo. Pelo relato do próprio documentário, pode-se comprovar que ele é um diferencial muito grande nessa área. Que possamos olhar para a cultural local, regional, com mais amor”, salientou o produtor.

Postar um comentário

0 Comentários