Em tempos de pandemia, instituições se unem para ajudar a quem mais precisa em Feira de Santana

 


A vulnerabilidade social é um problema frequente enfrentado por muitos brasileiros, muito antes da pandemia. Infelizmente, essa situação tomou uma proporção muito maior, quando a economia em todo o mundo foi afetada de forma radical por conta da Covid-19.

O que muito se viu no ano de 2020 foram enormes filas de pessoas em busca do Auxílio Emergencial na porta das agências bancárias, aumento do índice de desemprego e muitos profissionais se reinventando no mercado de trabalho para manter a garantia de renda.

Em Feira de Santana, esse cenário não é diferente e a oportunidade de emprego foi fechada para muitas pessoas. Para sustentar a família e pagar o aluguel da residência, Paulo Roberto de Jesus Silva, 53 anos, de idade, trabalha há 4 anos com reciclagem.

Foto: Ed Santos/ Acorda Cidade

Em entrevista ao Acorda Cidade, Paulo explicou que depois da pandemia, muitas pessoas também iniciaram o processo da reciclagem, e atualmente só consegue recolher cerca de 20kg de material reciclável por dia.

"Eu saio de casa às 5h30 e só retorno por volta de 0h. Essa rotina se repete na segunda, quarta e sexta, que são os dias de coleta aqui no meu bairro pela manhã e quando tem tempo, eu vou fazer a reciclagem no centro, faço a coleta de papelão, garrafa PET, as vezes vou buscar na casas das pessoas que me avisam. Era muito material que eu recolhia, mas depois da pandemia, muita gente começou a reciclar também, então com isso eu só consigo reunir em média de 20kg de material e que variam de R$ 0,30 a R$ 0,70 o kg do papelão e da garrafa PET", explicou.

Para Roberto, mesmo sendo um trabalho digno coletar material reciclável, ao mesmo tempo se torna humilhante, mas segundo ele, é preciso para manter a esposa e os filhos.

"O pessoal acha que reciclador é mendigo, é pessoa que usa droga, infelizmente é humilhante, mas eu sou diferente, eu trabalho desta forma para manter a minha família, manter a minha esposa, meus filhos. Hoje uma das maiores dificuldades que tenho, é a falta da balança, porque com esse instrumento, eu não só venderia, como também compraria o material reciclável. As vezes, chegam pessoas aqui para vender material, porém não tenho como pesar e perco essa oportunidade, porque a cada R$ 0,60, R$ 0,70, no final do mês, mesmo que seja pouco, mas já faz uma grande diferença", relatou.

Paulo explicou que o o valor da balança custa em médica de R$ 1.800, porém o dinheiro que recebe do material reciclável, já tem o destino certo, como a mensalidade do aluguel e a compra dos alimentos.

Foto: Ed Santos/ Acorda Cidade

"Hoje essa balança custa cerca de R$ 1.800, mas como eu faço a reciclagem sozinho, não tenho comprar, muitas vezes nem sobra o dinheiro para completar o aluguel da casa que é de R$ 700 e preciso ficar pedindo ajuda a um e a outro. Depois da pandemia, as coisas se tornaram difícil e como já citei, só aqui no bairro do Sobradinho, mais de 20 pessoas começaram a fazer reciclagem, as pessoas ficaram desempregadas e dependem agora desse ramo. Para muitos, isso é lixo, mas para nós, é um material que é transformado em dinheiro, desse dinheiro é transformado em pão e aluguel", concluiu.

Foto: Ed Santos/ Acorda Cidade

Para auxiliar na compra da balança, o amigo Herbson Silva Souza, iniciou nas redes sociais, uma campanha em prol da aquisição do equipamento. Para Herbson, ajudas com cestas básicas, se torna algo momentâneo para o consumo e a doação de uma balança, é um grande apoio mantendo o sustento da família de Paulo Roberto.

"Eu já conheço Paulo a quase 10 anos e decidir iniciar essa campanha nas redes sociais para ajudar ele. Eu sei que muitas pessoas estão precisando de uma cesta básica, mas nada melhor, proporcionar a ele, um meio que possa prover o seu sustento, ele será também um revendedor, aumentando o comércio do material reciclável. A questão da doação de uma cesta básica, se torna algo momentâneo, de consumo para aquele momento e infelizmente, não leva a dignidade para muitas pessoas, que logo depois, irão necessitar de uma nova cesta básica", explicou.

A campanha para aquisição da balança, está sendo feita nas redes sociais de Herbson e também através da 'Vakinha Online'

Realizando um trabalho importante do município de Feira de Santana, a Cáritas é um organismo da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e tem a sua atuação no campo da ação social da Igreja.

De forma voluntária, Edcarlos hoje se tornou um agente Cáritas e explicou que o organismo tem como principal papel, ajudar os mais necessitados do município, principalmente aqueles, em situação de rua.

Foto: Ed Santos/ Acorda Cidade

"A Cáritas hoje assume um projeto de Jesus Cristo, que é anunciar o reino e esse reino ele é presente nas pessoas mais vulneráveis, nos mais sofridos entre os mais pobres da nossa cidade, ainda mais nesse tempo de pandemia. Estamos diretamente com este público e o Evangelho de Matheus diz, estava com fome, me deste o que comer, estava com sede, me deste o que beber, e precisamos dar esse acolhimento, nosso papel, é estar presente para esta comunidade", disse.

De acordo com Edcarlos, cerca de 300 pessoas são beneficiadas com os recursos do Cáritas e cerca de 250 refeições são distribuídas diariamente.

"Nós temos algumas pastorais que nos auxiliam, como a Pastoral da Mulher com o espaço Viva Mulher, Pastoral do Povo de Rua, que fica no Espaço Monsenhor Jessé e temos o Projeto Luz que fica na Paróquia do Tomba. Essas pessoas que estão na rua, são homens, são mulheres com crianças de colo e conhecemos cerca de 300 pessoas que nós atendemos dia a dia. Feira de Santana tem um entroncamento enorme, então as pessoas vão chegando e vão ficando, muitos não conseguiram ter o acesso ao Auxílio Emergencial, mas elas precisam ter o que vestir, precisam ter o que comer, precisam também das vacinas e no Centro Social Monsenhor Jessé, ofertamos no horário do almoço, cerca de 250 refeições diariamente, são pessoas que nos procuram para ter o que comer", relatou.

As pessoas que estão em situação de vulnerabilidade social, mas que não estão em situação de rua, devem procurar os Centros de Referência da Assistência Social (CRAS). De acordo com Edcarlos, o organismo também realiza ações em parceria com a secretaria de Desenvolvimento Social (Sedeso).

"Aqui em Feira de Santana, temos os bairros como Baraúnas, Rua Nova, Campo Limpo, George Américo, Tomba, Aviário, que possuem muitas pessoas com vulnerabilidade social e precisam incialmente buscar o CRAS e por isso dialogamos constantemente com o poder público, para que a dignidade dessas pessoas, possa ser garantida", disse.

Fundada em 1946, a Instituição Dispensário Santana atua no município em serviços assistenciais à comunidade de Feira de Santana. De acordo com a coordenadora do local, Irmã Rosa, o trabalho é voltado para os mais necessitados e excluídos da sociedade.

Foto: Ed Santos/ Acorda Cidade

"Nosso trabalho aqui é voltado para essa área da vulnerabilidade social, desde quando nós nos dispusemos a trabalhar com os mais pobres, com os mais excluídos e com os mais necessitados. Um dos principais pedidos que nos chegam aqui, é o alimento, o auxílio na compra de remédios, um recurso para que seja pago a conta de água, luz e até mesmo o gás para cozinhar", relatou.

Todos os dias a partir das 8h30, e feita uma distribuição de alimentos para as pessoas, tanto aquelas que já possuem cadastro na unidade, quanto aquelas que não possuem.

"Nós fazemos aqui o possível e até o mesmo o impossível para solucionar determinadas dificuldades. São mais de 100 pessoas aqui em nosso portão todos os dias para receber alimentação e essa distribuição tem início a partir das 8h30 e se estender até por volta de 10h30, são pessoas que possuem cadastro e existem também aquelas pessoas que não possuem, mas com a graça de Deus, Ele que vem nos permitindo essa condição de ajudar a todos que batem em nossa porta e ninguém sai de mão vazia", disse.

Atualmente, cerca de 1.800 famílias são beneficiadas com cestas básicas distribuídas pelo Dispensário Santana. De acordo com Irmã Rosa, todos os alimentos, são provenientes de outras doações que são feitas ao Dispensário.

"Todos estes alimentos que distribuímos, são frutos de doações, muitas vezes algumas pessoas não conseguem fazer a doação do material e fazem a doação em dinheiro, o que nos ajuda bastante, porque vamos complementando o que falta em nossa dispensa. Hoje mesmo, eu recebi a informação que nosso estoque de açúcar já terminou e precisamos providenciar. Atualmente, cerca de 1.300 famílias estão cadastradas em nosso sistema e quase 500 famílias não estão, então nós temos o compromisso de uma vez por mês, doar uma cesta básica para esta família que está cadastrada, mas também afirmo novamente, que aquelas que não estão cadastradas, fazemos o possível para não retornar para casa sem ter o que o comer", destacou.

Uma das principais dificuldades enfrentadas pelo Dispensário Santana, é a falta da doação de alimentos, para que seja feita a distribuição para os mais necessitados. Mas segundo Irmã Rosa, mesmo em meio as lutas enfrentadas por todos, a comunidade de Feira de Santana, é solícita e generosa.

"Eu costumo dizer que a generosidade e a solidariedade do povo de Feira de Santana é uma característica muito peculiar e própria, porque o povo feirense traz essas qualidades de serem generosos, mas por outro lado, a gente também entende que as pessoas também precisam assumir outros compromissos, como escola dos filhos, dificuldades financeiras, todo esse cansaço há um ano e meio enfrentando essa pandemia e é preciso manter esse malabarismo para manter todos esses alimentos diariamente aqui em nossa casa. Com a providência Divina e com muito amor, estamos enfrentando todas as dificuldades e agradecendo sempre as empresas aqui de Feira de Santana que sempre tem nos ajudado", concluiu.

De acordo com os dados obtidos pela secretaria de Desenvolvimento Social, cerca de 126.796 famílias estão cadastradas no CadÚnico e 42.961 famílias, estão sendo beneficiadas com o Bolsa Família.

Em entrevista ao Acorda Cidade, o secretário Antônio Carlos Borges Júnior, informou que cerca de milhão e meio em recursos, são destinados para dar apoio a todas estas famílias que estão em estado de vulnerabilidade social.

Foto: Ed Santos/ Acorda Cidade

"Nós temos hoje a atualização de dados de 81,75% desses novos cadastros das famílias em vulnerabilidade social e a média nacional é de 70%. Os valores aproximadamente investidos nestas famílias aqui em Feira de Santana através do programa, é de um milhão e meio, atendendo a esse universo de famílias que são beneficiadas pelo Bolsa Família", destacou.

O perfil de famílias assistidas pelo programa é caracterizado em extrema pobreza e pobreza. De acordo com o secretário, 23.261 famílias estão em estado de extrema pobreza no município.

"Classificados como extrema pobreza, nós temos atualmente 23.261 famílias, isso significa 20% aproximadamente do quantitativo que temos hoje em nosso cadastramento e temos uma cobertura de 90% em estimativa, das famílias pobres. Tudo isso é levado em consideração a renda, pois a extrema pobreza é de R$ 0 a R$ 81, a pobreza é de R$ 81 a R$ 271, então estes, são os perfis de famílias em vulnerabilidade social que nós temos em nosso município", explicou.

Para ter o benefício do Bolsa Família, o secretário explicou que o cidadão precisa comparecer em uma unidade do CRAS para realizar o cadastramento.

"Nós estamos com o CRAS em 16 territórios onde atendem aproximadamente cerca de três a cinco mil famílias. É necessário que o demandatário, o cidadão ou cidadã, compareçam em uma dessas unidades para se cadastrar no Bolsa Família. Queremos registrar também que cerca de 94% dos chefes de famílias, são mulheres", disse.

Para dar mais comodidade à população carente, o secretário explicou que um ônibus será disponibilizado para levar os serviços aos locais mais distantes do centro da cidade, evitando que as pessoas se desloquem.

"Estaremos disponibilizando junto com a equipe da Sedeso e do CRAS, um ônibus que irá fazer um itinerante com psicólogos, assistentes sociais, pedagogos e todos os serviços da secretaria. Esse ônibus será encaminhado para os locais mais longínquos, como povoados, bairros mais afastados do Núcleo onde tem o CRAS e isso evita que as pessoas possam se deslocar para locais distantes, são benefícios que estaremos levando ao cidadão, inclusive, fizemos uma ação como esta no bairro Caraíbas, com o cadastramento daquelas pessoas em situação de vulnerabilidade social", afirmou.

O secretário explicou que durante este período de pandemia, a Sedeso em parceria com o CRAS iniciou algumas assistências, principalmente relacionadas as mortes decorrentes por Covid-19.

"Devido ao grande índice de mortes por Covid-19, nós damos um auxílio funeral a estas pessoas em situação de vulnerabilidade social, onde disponibilizamos o caixão, translado, urna funerária e até mesmo, o local do enterro. Durante este período, também auxiliamos aquelas pessoas que precisavam de passagens para retornar para as cidades de origem e são várias ações que a prefeitura, através da nossa secretaria, está desenvolvendo, ajudando a quem mais precisa", concluiu.

 

Fonte: Acorda Cidade

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