Eles acham que a pandemia é o momento perfeito para lançar uma companhia aérea

 Avião da FlyrNovatos apostam em novas áreas de oportunidade e esperam conseguir grandes descontos em aeronaves e mão de obra. Foto: Reprodução


Londres (CNN Business) – A pandemia do coronavírus forçou até mesmo as maiores companhias aéreas a manter em solo aviões, cortar empregos e reforçar o caixa para sobreviver à pior crise da história da aviação. Uma recuperação total ainda está a anos de distância. Mesmo assim, um grupo de CEOs corajosos acha que agora é o momento perfeito para lançar novas companhias aéreas.

“Não estaríamos [estreando] sem a pandemia”, disse Tonje Wikstrøm Frislid, CEO da startup da aérea low cost norueguesa Flyr.

Com planos para voar pela primeira vez nos próximos meses, a Flyr não está sozinha. A Flypop, uma startup do Reino Unido que deseja oferecer passagens a baixo custo para voos de longa distância, está se preparando para decolar em 2021, juntamente com a Breeze Airways, a última aposta do empresário de companhias aéreas em série David Neeleman, que fundou outras companhias aéreas, incluindo a JetBlue, a brasileira Azul e a WestJet.

Tudo pela metade do preço

Os novatos estão apostando que as falhas e cortes sofridos em outras companhias aéreas durante a pandemia abrirão novas áreas de oportunidade. Eles também esperam conseguir grandes descontos em aeronaves de fornecedores desesperados, e poder escolher pilotos, tripulação aérea e equipe de apoio.

“Uma pandemia é o melhor momento para abrir uma companhia aérea porque os custos estão muito baixos”, afirmou o CEO da Flypop, Nino Judge. “Tudo está pela metade do preço – o que você precisar está pela metade do preço”.

Setor afetado em cheio

Ainda assim, muita coisa depende do momento da recuperação. A pandemia prejudicou enormemente o setor aéreo, com o tráfego global de passageiros caindo 94% no pico dos lockdowns em abril passado, de acordo com a Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata). 

As restrições de viagens impostas pelos governos, juntamente com a enorme quantidade de dinheiro que as aéreas gastaram para continuar operando –que a Iata estimou em US$ 140 bilhões (cerca de R$ 791 bilhões) entre abril e dezembro de 2020– tiveram consequências dramáticas.

Vinte e duas companhias aéreas com frotas de mais de dez aeronaves encerraram suas operações em 2020, quase o dobro do número de quebras em um ano normal. Flybe, SunExpress Germany, Latam Argentina e Tigerair Australia estão entre as vítimas.

Para a Iata, na melhor das hipóteses, em 2021 o tráfego de passageiros recuperará 50% dos níveis anteriores. Mas novas variantes do coronavírus e uma implementação lenta da vacinação podem resultar em um tráfego anual de apenas 38% dos níveis de 2019, segundo o órgão do setor.

“Não parece o melhor momento para abrir [uma companhia aérea]”, opina John Strickland, analista independente da JLS Consulting. “Não sabemos quando virá a recuperação. Não sabemos exatamente como o mundo será. É um risco tremendamente alto”.

Aviões com 50% de desconto

A frota representa um dos maiores custos para as companhias aéreas e, no momento, as aeronaves estão muito baratas. Isso acontece porque uma “série de aeronaves –novinhas, saídas da linha de produção– não serão entregues tão cedo. Ou seja, há oportunidades para adquirir aeronaves a preços muitos bons”, disse Strickland ao CNN Business.

A Flypop está pagando até 50% menos para alugar seus Airbus A330 em comparação com os concorrentes no mercado de voos de longa distância, disse o CEO Judge. A Breeze e Flyr disseram que também estão aproveitando os cortes de preços de 40% a 50% nos arrendamentos de aeronaves devido à pandemia.

Aviões baratos são um grande incentivo para potenciais investidores. “Sem dúvida haverá oportunidades para companhias aéreas com diferentes modelos de negócios oferecerem algo novo”, especialmente se as companhias aéreas puderem adquirir novas aeronaves a um custo baixo, disse Elise Weber, cofundadora do banco de dados de aviação Skytra.

Para Judge, CEO da Flypop, as novas companhias aéreas também têm uma vantagem porque têm poucas dívidas, o que significa que a economia de custos é repassada diretamente ao passageiro.

Ao adquirir aviões baratos, a empresa “se distancia dos concorrentes”, disse Strickland. “Mas só porque há muitas aeronaves novas e usadas baratas disponíveis, não significa que se deve pegá-las. É preciso ter um bom plano de negócios e uma justificativa de mercado para o que se está fazendo”, acrescentou.

Novo tipo de viagem

As viagens de negócios podem nunca se recuperar totalmente, mas os especialistas dizem que dois tipos de passageiros podem retornar com relativa rapidez: viajantes a lazer e pessoas que visitam amigos e parentes, conhecido como setor VFR, no jargão das aéreas.

Weber disse ao CNN Business que o foco do mercado “está mais em viagens curtas e menos nas longas”, com voos rápidos sendo “menos sobrecarregados pelas restrições de diferentes países e impulsionados por pessoas que procuram férias acessíveis e de baixo risco ou voos domésticos para ver a família”.

Neeleman, da Breeze Airways, disse que sua companhia aérea terá como objetivo as viagens de lazer nos Estados Unidos, com foco no “hub-busting”, ou seja, a oferta de voos diretos em rotas que atualmente requerem uma conexão.

A Flyr focará no mercado familiar e de lazer norueguês, enquanto o Flypop visa atrair pessoas que viajam entre o Reino Unido e o sul da Ásia.

Em 2020, as quebras no setor aéreo fizeram com que 600 aeronaves fossem descomissionadas, abrindo grandes lacunas no serviço. De acordo com Neeleman, nos Estados Unidos, muitos mercados de pequeno e médio porte perderam serviços sem escalas para destinos desejáveis, criando uma brecha no mercado.

A chave é encontrar essas oportunidades. Se uma nova companhia aérea tentasse competir diretamente com uma empresa como a Ryanair, a maior aérea low cost Europa, “você provavelmente saberia qual delas vai sobreviver”, disse Strickland.

Mão de obra disponível

Muitas companhias aéreas existentes realizaram cortes drásticos de custos para equilibrar as contas. Ou seja, milhares de pilotos, tripulantes de cabine e executivos ficaram sem trabalho.

Para as novas companhias aéreas, isso significa a possibilidade de contratar uma força de trabalho experiente, sem complicações, e por uma fração do preço.

“Temos uma equipe realmente sênior”, conta Judge, da Flypop. “Se eu fosse retirar esses profissionais de seus contratos anteriores, teria pagado uma fortuna no passado. Os custos agora são metade do que eu teria que pagar”.

O mais importante para os iniciantes será um modelo de negócios sólido, boa sorte e um timing ainda melhor.

Para o analista Strickland, “uma companhia aérea com liquidez e frota, além de um plano de negócios realmente bem definido” pode ter sucesso.

(Texto traduzido. Clique aqui para ler o original em inglês).

Fonte: CNN Brasil

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