Será que as vacinas podem salvar os Jogos Olímpicos de Tóquio?

Pedestres caminham em frente a museu olímpico em Tóquio

                        Pedestres caminham em frente a museu olímpico em Tóquio. Foto: Issei Kato - 30.mar.2020/Reuters


O destino dos Jogos Olímpicos neste ano está cercado de incertezas, motivadas pela pandemia crescente e uma luta global por vacinas.


Em novembro passado, três semanas antes das primeiras doses da vacina se tornarem disponíveis à população no Reino Unido, o presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Thomas Bach, disse que estava esperançoso que uma vacina eficaz ajudaria a realização dos Jogos com segurança.

Avance para fevereiro de 2021 e os organizadores parecem não confiar na vacinação da maneira que esperavam, já que atrasos na entrega de doses têm dificultado o processo dos programas de vacinas, especialmente na Europa.

“Acho que muitas pessoas acreditavam que, uma vez que as vacinas começassem a ser aplicadas, isso significaria o fim da Covid-19 de fato e veríamos taxas de transmissão começando a despencar, tudo ficaria mais sob controle e teríamos alguma capacidade de voltar a um estilo de vida mais normal”, disse Jason Kindrachuk, especialista em doenças infecciosas da Universidade de Manitoba, no Canadá, à CNN Sport.

“O fato é que, mesmo com boas implementações de vacinas em várias regiões do mundo, estamos tendo problemas para controlar a transmissão da doença”.

Atletas na fila

Bach, do COI, também disse que os organizadores “farão um grande esforço” para garantir que “os participantes e visitantes da Olimpíada cheguem (em Tóquio) vacinados”. Ao mesmo tempo, ele rejeita as sugestões de que as vacinas seriam obrigatórias para os atletas – algo ecoado pelo CEO da Tokyo 2020, Toshiro Muto, durante uma teleconferência no final de janeiro.

A posição dos participantes dos jogos na lista de prioridades de uma vacina provavelmente será um tópico polêmico. Entre os atletas, o sentimento geral é de que estão preparados para esperar sua vez.

“Acho que todos – pelo que posso dizer sobre a equipe dos EUA – estão na mesma página”, disse a corredora de obstáculos Colleen Quigley, que competiu nos Jogos Olímpicos do Rio de 2016, à CNN Sport.

“Sim, queremos ser vacinados para que possamos ir aos Jogos com segurança e ter uma Olimpíada segura, mas também sabemos que não somos os primeiros da lista”, comentou.

“Há muitas pessoas, idosos e gente que está trabalhando em supermercados, nas escolas e em hospitais, todas essas pessoas que estão na linha de frente, que com certeza estarão na nossa frente. Somos todos indivíduos muito jovens e saudáveis. E vamos apenas esperar a nossa vez. Embora eu sinta que a gente quer muito a vacina, sei que não seremos os primeiros da fila. E eu acho que todo mundo está totalmente bem com isso”.

Há também obstáculos logísticos quando se trata de vacinar atletas em escala global, especialmente considerando como o acesso à vacina, frequentemente vinculado à riqueza nacional, varia em todo o mundo.

“Já temos problemas em regiões de alta renda de tentar vacinar – e isso em áreas que compraram milhões de doses –, pois precisamos descobrir como atingir as pessoas que são de alto risco em comparação com aquelas que talvez não se enquadrem politicamente nessa esfera”, disse o professor canadense Kindrachuk.

“Começamos então a olhar para mais áreas de baixa ou média renda no mundo, aquelas que nem chegaram a pensar ainda sobre como será o lançamento da vacina por causa das questões logísticas, de armazenamento e o fato de que a maioria das doses já foi comprada pelos países mais ricos do mundo”.

Quando contatado sobre questões de implantação de vacinas, o COI citou um comunicado divulgado no final de janeiro descrevendo uma “série de ferramentas de contramedidas da Covid-19” a ser implementada durante os Jogos, incluindo “procedimentos de imigração, medidas de quarentena, testes, equipamento de proteção individual, rastreamento de contato e vacinações”.

“As vacinas são uma das muitas ferramentas disponíveis na caixa de ferramentas para serem utilizadas no momento e do modo adequados”, afirmou o comunicado, que continuou:

“O COI continua a apoiar fortemente a prioridade de vacinação de grupos vulneráveis, enfermeiras, médicos e todos que estão mantendo nossas sociedades seguras.

“O COI trabalhará com os CONs [Comitês Olímpicos Nacionais] para incentivar e auxiliar seus atletas, autoridades e partes interessadas a serem vacinados em seus países de origem, de acordo com as diretrizes nacionais de imunização, antes de irem para o Japão.

“Isso vai contribuir para o ambiente seguro dos Jogos, mas também é um sinal de respeito ao povo japonês, que deve estar confiante de que tudo está sendo feito para proteger não só os participantes, mas também o próprio povo japonês”.

Desafio logístico

Os organizadores de Tokyo 2020 disseram à CNN Sport que fizeram reuniões no ano passado sobre como os Jogos poderiam funcionar mesmo sem vacinação, acrescentando: “É nosso entendimento que as políticas de vacinação estão sendo formuladas pelo governo do Japão e outros órgãos."

Mais de 11 mil atletas de mais de 200 países participaram da Olimpíada do Rio. Adicione a eles as equipes de apoio e pessoal de mídia e dá para imaginar o tamanho do desafio logístico e de saúde do COI na era do coronavírus, especialmente com a expectativa de realizar os Jogos em apenas seis meses.

“Não podemos pensar nisso apenas em termos de atletas, porque não são apenas os atletas que farão parte da Olimpíada; há os comitês organizadores que estão envolvidos, todas as pessoas que estão fornecendo suporte, todos os treinadores”, enumerou Kindrachuk.

“Todos são carregadores em potencial para o vírus que chegam a uma comunidade... Ao colocar pessoas de todo o mundo em um local internacional, basta apenas um indivíduo para dar início a essa corrente de transmissão”.

Tóquio foi colocada sob estado de emergência no início de janeiro, quando os casos de Covid-19 atingiram níveis recordes. Em todo o Japão, os cidadãos estão preocupados com a realização dos Jogos, devido ao atual estado da pandemia.

Uma pesquisa recente feita pela emissora pública japonesa NHK descobriu que 77% dos entrevistados achavam que os Jogos Olímpicos deveriam ser adiados novamente ou totalmente cancelados, com apenas 16% a favor de realizá-las este ano

O Aberto da Austrália, marcado para começar na segunda semana de fevereiro, mostrou um panorama das dificuldades potenciais enfrentadas pelos organizadores olímpicos, que afirmam ter monitorado eventos em Melbourne, bem como competições esportivas em outros lugares.

Setenta e dois tenistas foram colocados sob estrita quarentena em hotel por 14 dias antes do torneio, após testes positivos em passageiros que estavam em seus voos a caminho da competição. Outros foram autorizados a treinar cinco horas por dia em bolhas biosseguras.

Após preocupações de que os jogadores em quarentena ficariam em desvantagem durante o torneio, organizadores alteraram o cronograma pré-torneio e anunciaram que sessões de treino, ginásios e banhos de gelo seriam priorizados para jogadores que tivessem sido colocados em quarentena.

Não há dúvida de que reduzir a transmissão no local será um dos principais desafios que os organizadores olímpicos. Ligas como a NBA demonstraram como as "bolhas" esportivas podem operar de forma eficaz.

Mas só 22 times fizeram parte da bolha da NBA, cada um com uma equipe com até 15 jogadores.

“Será muito difícil eliminar o risco de infecção com um grupo desse tamanho”, disse o professor Alastair Grant, da Universidade de East Anglia, refletindo sobre o desafio de tentar lidar com milhares de atletas que vivem juntos no Vila Olímpica.

“Se você tranca as pessoas em seus quartos, como fizeram no Aberto da Austrália, pode reduzir a chance de isso acontecer. Mas é realmente muito difícil controlar a transmissão em um grande grupo, de forma comunitária”.

Negativas do COI

Ao avaliar como hospedar a Olimpíada com segurança, os organizadores também tiveram que negar reportagens dizendo que os Jogos seriam cancelados de vez.

Na semana passada, o jornal “Times”, de Londres, citando um membro sênior não identificado da coalizão do governo, disse que as autoridades japonesas concluíram reservadamente que os Jogos Olímpicos não poderiam prosseguir em meio à pandemia. A notícia foi refutada como “categoricamente falsa” pelo COI.

Enquanto isso, os organizadores de Tokyo 2020 garantiram que estavam “totalmente focados em sediar os Jogos neste verão”.

Em uma coletiva de imprensa no final de agosto, Bach reiterou que o COI está “confiante” em realizar os Jogos com segurança.

“Não estamos especulando se os jogos acontecerão, estamos trabalhando em como eles acontecerão”, afirmou o presidente do COI, acrescentando que “mais de 7 mil eventos esportivos foram organizados pelas federações internacionais neste inverno... e nenhum deles virou um ponto de transmissão (de infecção)”.

Enquanto isso, o evento final de qualificação artística de natação antes da Olimpíada, que deve ser realizado em Tóquio em março, foi adiado para maio devido a restrições de viagens no Japão, segundo anunciaram os organizadores recentemente.

Originalmente programado para ocorrer de 4 a 7 de março no Tokyo Aquatics Center, a ocasião seria também um evento de teste olímpico com as medidas contra a Covid-19 em vigor.

Aleks Klosok e Homero De La Fuente, da CNN, contribuíram nesta reportagem

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).

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