Feira em História - O São João antigamente


Neste São João em tempo de confinamento, vale a pena lembrar os festejos de antigamente. Do tempo de dona Cecília, no Nagé fazendo pamonha; do disputado licor de Pedro Mendes, no Minadouro da roupa da festa costurada por Lindu na Baraúnas; dos fogos “adrianino” na venda de Pedro Alexandre, no Sobradinho. (Adilson Simas)

No São João daquele tempo a gente via as residências feericamente iluminadas, adornadas de graciosas lanternas e longas fitas coloridas pelos corredores da casa.
Do São João daquele tempo lembro a mesa bem forrada e sobre ela pratos maravilhosos, de travessa, contendo morena e saborosa canjica – a rainha da festa que tinha como seus seguidores os doces secos e de calda, frutas variadas em profusão, comandadas pelas gostosas laranjas de umbigo.
No São João de outrora, também presente na mesa a leitoazinha tostada, vaidosa ainda, pois ostentava uma flor na cintura, parecendo namorar o porquinho sizudo, mas cheiroso como um cravo, que também enriquecia a mesa farta.
No São João de tempos idos, o rei da mesa, no entanto, era o peru com seu papo recheado, orgulhoso, desafiando os seus adversários gastrônomos, principalmente as galinhas assadinhas, enfeitadas de tirinhas de papel, lembrando as garotas que passavam em bandos usando chapeuzinhos coloridos.
No São João de um passado distante tinha muita mais na mesa de todas as casas. Tinha queijos verdadeiros, o sublime doce de leite, o doce de caju. Tinha vinho, tinha cerveja, mas tinha principalmente o licor de jenipapo sempre saboroso e forte, que na mesa parecia bater papo com o licor de maracujá, certamente disputando quem seria o mais consumido pelos convivas.
No São João daquele tempo, na frente de cada casa não existia apenas a fogueira assando milho, batata doce e outros produtos típicos. Tinha cana com folhas e também a árvore plantada, em cujos ramos colocava-se fitas coloridas de papel de seda, milhos, bebidas, laranjas, cocos e como aquele era um tempo de bonança, colocava-se também até dinheiro e tudo mais conforme o gosto do dona da casa.
Do São João do passado, recordo a palavra de ordem “Um por todos para a canjica, todos por um para o jenipapo”, quando a gurizada iniciava a romaria de casa em casa.
No São João que não sai da lembrança, a gente bebia, dançava e pulava fogueira, num ritual que motivava o surgimento de compadres e comadres que muitos vezes até terminava em casamentos com as graças de Santo Antônio e a proteção de São João.
Exalto o São João da minha infância sem a pretensão de achar que a festa junina acabou e muito menos o São João. A festa ainda existe, mas não tem a beleza do passado.
Aqui na Feira, quando o São João já não motivava o intenso vai e vem das pessoas de casa em casa, de rua em rua, o prefeito José Falcão, ainda no seu primeiro mandato, no começo dos anos 70, fez do distrito de Maria Quitéria a sede da grande festa junina.
Recordo, na entrada para a sede do distrito, pela rodovia Feira/Serrinha, uma enorme placa de zinco  com os seguintes dizeres: “Entre. Veja como é bonito o São João de São José”.
Com o passar dos anos, mesmo nas gestões seguintes do próprio prefeito José Falcão, o São João de São José foi perdendo as fogueiras, as quadrilhas, as mesas fartas.
Na imensa praça, além das barracas com muita cerveja e quase nenhum tipo de licor, apenas um enorme palco armado para a exibição de artistas famosos interpretando as mesmas musicas exibidas ao longo do ano nos programas de rádio e televisão.
Aliás, mesmo nos poucos recintos fechadas onde a festa tenta resistir, no lugar das canções exaltando Santo Antônio, São João e São Pedro, interpretadas por Marinês, Trio Nordestino ou mesmo pelos cantores mais recentes do período junino, ouve-se musicas de duplo sentido como aquela que diz “Eu conheço a cara da mulher de pode”, ou então “Eu nunca fui de mal com você...”.

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