temas jurídicos

Advocacia e saúde mental

Relato pessoal.


Joguei essa expressão no Google e deu “aproximadamente 9.620.000 resultados”. Eu de pronto pensei: “opa, não estou sozinho”. É difícil tratar desse tema de maneira tão pessoal. Tanto que tenho depressão há pelo menos dez anos, mas comecei a dar a devida importância quando ela se intensificou devido ao trabalho. Há uma semana um amigo de faculdade se matou e isso me incentivou a falar um pouco do assunto.

Na hora lembrei de algumas conversas com ele. Certa vez tratamos de como tínhamos entrada mais tarde na faculdade de direito. De como não éramos mais jovens o suficiente para o curso, em tom de brincadeira. Como em toda sala de aula, os grupos se dividiam, os adolescentes, uma galera que sentava no fundo, entre outros, e os idosos, nosso caso. É bom ter boas lembranças de pessoas que se foram, temos sorte de ter compartilhado essa época e esse tempo.
Reluto, entre pensamentos e algumas cervejas em escrever este texto. Não deveria beber também, mas a vida depois de um tempo só vale por suas pequenas transgressões. Comecei tarde no direito, aos trinta e três, como comecei tarde em muitas coisas na vida. Acho que eu preciso fazer as coisas mais de uma vez para dar certo (tomara que nenhum cliente leia isso, caso contrário, alego licença poética).
Tenho trinta e seis anos e comecei a beber aos trinta. Até hoje amargo em meu âmago esta perda de tempo considerável em minha vida, mas, entre intervalos maiores ou menores, tenho recuperado o tempo perdido, aproveitando “socialmente” os prazeres da vida. Assim como tenho levado a cabo um tratamento contra depressão e ansiedade que hoje é tratado com extrema seriedade.
Longe de maquiar o problema, me perco entre pensamentos tentando entender onde isso começou. Anos na rotina policial, no Batalhão de Operações Policiais Especiais – BOPE (2002-2010) podem ter ajudado. O estresse de cada ocorrência, até então levado como emoção a cada tiroteio. As movimentações táticas, as decisões tomadas em tempos ínfimos, o esforço físico, o enfrentamento aos violadores da lei, etc.
E embora eu tenha passado por tais experiências, o que fundiu minha cabeça foi o conjunto de tudo isso. A polícia, o direito, a faculdade, já mais velho, o preconceito sobre as doenças mentais ainda existentes em nossa sociedade. Sem tratamento, como leigo que sou, vemos a realidade de uma forma deformada, mas com o devido acompanhamento médico, vive-se uma rotina normal em família e no trabalho.
Em certo sentido, em maior ou menor grau, temos lentes para ver a realidade, e algumas delas precisam de tratamento médico. Não reluto em dizer. Todos fazemos isso, uns mais, outros menos. O mundo dos fatos é ininteligível universalmente, tenho certeza, mas em algum ponto existe a questão médica envolvida e alguém precisa de ajuda para ver.
Hoje, encontro o equilíbrio na atenção plena, na literatura, na poesia, nas sessões de terapia e psicoterapia, no estudo acurado de temas do direito a que me dedico, no exercício da advocacia. É difícil olhar o outro, perceber nuances que vão além do normal, todo mundo tem isso de alguma forma, mas ninguém quer dizer. Pode parecer radical, e às vezes o sou, mais o fato de precisar lutar contra este tipo de ameaça me deixou cuidadoso.
Reservo minha “loucura” para os momentos entre amigos, atendo clientes da melhor maneira possível, sorrio em coquetéis e evento da OAB, espalhando minha imagem de competência e dinamismo, “aquele que leu Dostoievski, Sartre e Camus”, disseram uma vez. E tenho uma vida normal, sempre amparado em tratamento que hoje permite o equilíbrio de qualquer profissional.
É imperioso que se diga que nem todos admitem passar por esses problemas. Outros, mais reservados tratam nuances genéricas da questão e se escondem atrás da terceira pessoa do discurso. Contudo, preciso assumir uma responsabilidade pessoal neste tema, tão caro para mim, mas que tem me ensinado que responsabilidade e equilíbrio são fundamentais em qualquer profissão.
Troque uma ideia comigo, compartilhe esse texto se te ajudou e me acompanhe nos espaços onde escrevo. O convite está feito.
Fonte da imagem: https://pixabay.com/pt/

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