temas jurídicos

A arte de se comunicar sem ofender


A rotina forense é pesarosa e estressante, mas devemos manter a compostura e, principalmente, a cordialidade. Leia o texto e entenderá a mensagem.

Certo dia, li a seguinte parábola:
Uma sábia e conhecida história diz que, certa vez, um sultão sonhou que havia perdido todos os dentes. Logo que despertou, mandou chamar um adivinho para que interpretasse seu sonho.
Exclamou o adivinho:
– Que desgraça, senhor! Cada dente caído representa a perda de um parente de vossa majestade.
– Mas que insolente! Como te atreves a dizer-me semelhante coisa? Fora daqui! - gritou o sultão enfurecido.
Chamou os guardas e ordenou que lhe dessem 100 açoites. Mandou que trouxessem outro adivinho e lhe contou sobre o sonho. Este, após ouvir o sultão com atenção, disse-lhe:
– Excelso senhor! Grande felicidade vos está reservada. O sonho significa que haveis de sobreviver a todos os vossos parentes.
A fisionomia do sultão iluminou-se num sorriso e ele mandou dar 100 moedas de ouro ao segundo adivinho. Quando este saía do palácio, um dos cortesãos lhe disse admirado:
– Não é possível! A interpretação que você fez foi a mesma que o seu colega havia feito. Não entendo porque ao primeiro ele pagou com 100 açoites e a você com 100 moedas de ouro...
Respondeu o adivinho:
– Lembra-te, meu amigo, que tudo depende da maneira de dizer. Um dos grandes desafios da humanidade é aprender a arte de comunicar-se. Da comunicação depende, muitas vezes, a felicidade ou a desgraça, a paz ou a guerra. Que a verdade deve ser dita em qualquer situação, não resta dúvida. Porém, a forma com que ela é comunicada é que tem provocado, em alguns casos, grandes problemas.
Ao terminar de lê-la, pude perceber que a referida parábola tem tudo a ver com o advogado, afinal, a arte da comunicação, seja escrita ou oral, é um atributo indispensável para o citado profissional.
Aliás, durante os cinco anos de faculdade sempre ouvimos a famosa e temida frase: "o advogado que não sabe comunicar-se passará vergonha diante do Juiz."
Todavia, o objetivo do presente texto não é enaltecer a oratória ou a redação do comunicador, mas sim a sutileza de como se transmite uma mensagem (o fino trato).
Pois bem. Percebe-se que na parábola há dois tipos de comunicadores; o primeiro, com palavras mais duras, informou que os parentes do sultão morreriam e, em consequência, foi penalizado pela ousadia; o segundo, por sua vez, transmitiu a mesma mensagem, entretanto, utilizou-se de palavras mais sábias, de modo que recebeu recompensas pela louvável atitude.
A mensagem foi tão clara que poderíamos encerrar o texto por aqui, mas bora dar mais algumas pinceladas. (risos)
Constantemente, deparamos com petições desrespeitosas, debates inflamados (principalmente nas sessões do júri), protagonizados por profissionais que não contêm as palavras e, infelizmente, preferem ofender seus colegas (e partes) a ter que manter o respeito mútuo. Triste realidade!
Embora o tecnicismo não seja o objetivo do presente texto, vale ressaltar o artigo 78 do Código de Processo Civil, que veda o uso de expressões ofensivas nos escritos, in verbis:
“Art. 78. É vedado às partes, a seus procuradores, aos juízes, aos membros do Ministério Público e da Defensoria Pública e a qualquer pessoa que participe do processo empregar expressões ofensivas nos escritos apresentados.
É certo que o advogado deve, sem dúvidas, produzir peças convincentes em favor de seu cliente, até porque ele não tutela pelos seus próprios interesses, mas pelos interesses de quem o contratou.
Entretanto, há diversas formas de defender um argumento crítico sem, necessariamente, ter que extrapolar os limites da polidez e da urbanidade. Para tanto, cumpre destacar o louvável trecho do grande escritor brasileiro, Machado de Assis:
‘‘Se a delicadeza das maneiras é um dever de todo homem que vive entre homens, com mais razão é um dever do crítico, e o crítico deve ser delicado por excelência’...
Advogar com excelência é para poucos, nobres Doutores (as)!
Não basta, apenas, dominar o uso do vernáculo, é necessário que se tenha “doçura nas palavras” e “sorriso na voz”, porque, agindo desta forma, abre-se margens para um diálogo franco, sadio e, sobretudo, pacífico. Fica a dica!
Fica, portanto, uma lição para todos nós, nobres Senhores (as)!
Forte abraço e até a próxima!
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Imagem: Pixabay.

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