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Feira em História: Aristeu Queiroz - sua sorte, sua morte!


Neste artigo do radialista Lucílio Bastos [foto abaixo], já falecido, publicado em outubro de 1976 no jornal Feira Hoje, ele narra com precisão a vida e a morte de Aristeu Queiroz um dos mais completos homens de comunicação desta terra nos anos 50 e 60. Vale a pena ver de novo (Adilson Simas):

- Eu conheci e convivi com Aristeu Queiroz, um nome que se ligou a história da radiofonia feirense que começa com o serviço de alto-falante da “Casa da Louça”, onde era anunciadas as novidades da época e os show do “Casino Irajá” até a chegada da Rádio Sociedade de Feira, nascida do ideal de Pedro Matos, e se espalha nos dias de hoje, muito embora já não se ofereça muita coisa para se contar.
Nasci atraído pelo rádio, pois ainda menino, minha diversão favorita era “transmitir” as notícias publicadas nos jornais e revistas através de um “microfone” de lata pregado a um cabo de vassoura. Nas minhas poucas incursões a rua Direita para tomar a bênção a Dona Zaninha, ficava empolgado com os sons do alto-falante e já cantarolava os sucessos da época.
Qualquer coisa me dizia que um dia, pelo menos em um serviço de alto-falante a minha voz também seria transmitida. E isso aconteceu ao lado de Clarival Souza, o inesquecível, de Antônio Alves Vitória, o sempre presente Ligoza, de Joel Magno, de Ildérico Martins e, por fim, a Rádio Sociedade onde conheci gente famosa da época, cujas vozes e programas se constituíam no encantamento da gente feirense.
Edson Matos, Osman Monteiro, Raimundo Oliveira, Gilberto Costa Filho, Montenegro Magalhães, Chico Baiano, Josué Nonato, Silva Filho, Edval Souza, Itaracy Pedra Branca, Geraldo Borges, Noé Mascarenhas e muitos outros, faziam do rádio feirense uma verdadeira época de ouro, mais tarde engrandecida com a presença de Aristeu Queiroz, o moço de Jacobina que regressava do Rio de Janeiro depois de ter convivido com os grandes nomes do rádio brasileiro e, num trabalho altamente difícil àquela época, ter conseguido gravar um disco de longa duração. 
- Aristeu Queiroz, o cantor que não esqueceu a Bahia – assim seu nome era anunciado. E o auditório do velho Edifício “Capirunga” se enchia de gente para aplaudi-lo. E Aristeu, violão em punho, chegava mesmo a fazer o auditório chorar, cantando as desventuras da ceguinha pedindo esmola na porta da igreja:
“Ai, quem não vê a luz do dia, chora, chora, de agonia...”
Ninguém conseguiu descobrir as verdadeiras razões que determinaram a sua fixação entre nós, preferindo Feira de Santana ao Rio de Janeiro, e até mesmo sua terra natal. Quem sabe, talvez Aristeu Queiroz [foto acima], o moço humilde e simples do sertão baiano tenha se desiludido com a cidade grande. Santana o acolheu e passou a admirá-la, e a incentivar o seu trabalho. E Aristeu cantava e Aristeu falava, chegou mesmo a produzir “jingles” comerciais, coisa que até então se constituía num privilégio para o Sul do país:
“Motorista, atenção/Tudo o que você precisa para o seu caminhão/Artigos de borracha/Acessórios também/ A Casa da Borracha tem/.”
Dionísio Medrado Costa pagou alguns cruzeiros por aquele trabalho de Aristeu Queiroz, e a sua propaganda era ouvida diariamente através o rádio, como também aconteceu com a Indústria de Refrigerantes Angyl, surgida lá pelas bandas da Serraria Brasil, quando ainda não se falava na industrialização de Feira de Santana:
“Refrigerantes, só Angyl/Os melhores fabricados no Brasil/Laranja Citra e Guaraná Mirim/Gasosa boa pra você,  pra mim...”
Pedro Matos, fundador da Rádio Sociedade resolveu enveredar pelos caminhos da política, e candidatou-se a deputado estadual. Aristeu Queiroz cantou as suas qualidades, exortando o povo a sufragar o seu nome:
“O Brasil está sofrendo minha gente/Precisamos combater esta aflição/Eu pergunto que não sofre quem não sente/esta hora que tortura o coração/ Nosso povo sempre foi independente/ trabalhando pela glória do país/Deste povo nasce um homem competente/sertanejo que ampara o infeliz/ Este homem é Pedro Matos/nova força da batalha nacional/candidato a deputado estadual”.
 
Era o produtor Aristeu Queiroz levando seu trabalho para ser prensado em Salvador. Seu trabalho aqui foi pioneiro. Vez por outra Aristeu Queiroz ficava doente, resultado do uso excessivo da bebida, onde ele mergulhava talvez as suas mágoas. Seus dissabores, suas tristezas.
Diziam alguns que Aristeu sofria por uma mulher, a Zefinha que inspirou seus versos tristes:
“Zefinha,  você que é da terra onde nasci/Me conta Zefinha, o que faz você por aqui”.
Depois de um breve período Aristeu retornava ao microfone, não lhe faltando nunca o apoio e a compreensão, de Antônio Pereira, na Rádio Cultura, de Ana Benedita a quem ele muito queria, de Frei Hermenegildo, de Araújo Freitas na Rádio Sociedade.
Todos compreendiam Aristeu, sabiam do seu valor, e lhe ofereciam sempre uma nova chance. Aristeu então promovia festivais, vendia ingressos, corretava anúncios e, com o auditório sempre cheio, lá estava Aristeu cantando, ora o dama da ceguinha, a sua infância em Jacobina, o drama do retirante, ou então as suas marchinhas para o Carnaval:
“Não chore assim Pierrot/ pois o amor é uma ilusão/Esquecer agora quem não te ligou/Vem alegrar teu coração”.
Aristeu foi também um dos primeiros cronistas da escola do rádio. Quem folhear a “Gazeta do Povo” nos idos de 1959 encontrará por certo inúmeras colunas por ele assinadas, onde o radialista com riquezas de detalhes, sempre com um elogio, um incentivo, jamais a crítica mordaz, contundente, ferina.
Sempre grato,  generoso e reconhecida, Aristeu Queiroz fazia questão de alardear o seu reconhecimento às pessoas que o ajudavam, que o compreendiam. Tanto pelo microfone, como nas colunas do jornal, lá estavam suas palavras de agradecimento. Aristeu fazia questão de dizer publicamente quem o ajudava.
Dominado pelo álcool, única forma talvez de esquecer os males que o mundo lhe causava, Aristeu pouco a pouco definhava, vagava pelas ruas, desaparecia e depois reaparecia para um novo recital, um novo programa, novas composições.
Depois deixou Feira, foi para sua Jacobina, retornando ao serviço de alto-falante que lhe proporcionava alguma coisa para viver. Estava, porém escrito que aqui em Feira, a Feira que ele soube tão bem cantar ele teria de morrer. Só e abandonado. Terrivelmente só, afastado daqueles que ele conviveram, e até mesmo da cidade que ele um dia cantou:
“Feira de Santana, princesinha do sertão/linda cidade baiana que fascina o meu coração...”
No dia 12 de junho deste ano, no Hospital Colônia Lopes Rodrigues, Aristeu Queiroz morreu. Morreu entre os loucos, tornando realidade os versos de Vicente Celestino:
“Quero somente que na campa eu que eu repousar/ os ébrios, os loucos como eu, venham depositar/ os seus segredos ao meu derradeiro abrigo/ e suas lágrimas de dor ao peito...”.
Morreu Aristeu Pinto de Queiroz, o menino filho de gente rica de Jacobina, senhores de muitas terras, as quais Aristeu desprezou por amor à vida, à musica, à poesia, ao rádio. Morreu só, depois de ter tentado, pela última vez, receber dos colegas, dos amigos, de alguém ou de alguma coisa, algo que prolongasse um pouco mais a sua vida, e minorasse pelo menos o seu sofrimento. Talvez um tratamento melhor, um cantinho seu onde repousasse a cabeça e onde pudesse voltar a compor. E isso lhe foi negado.
 
Nada lhe foi oferecido. Nem mesmo um caixão que fosse exclusivamente seu, e onde os seus ossos ficassem protegidos da terra fria. Sepultado como um indigente, o caixão que o conduziu ao cemitério foi devolvido ao hospital, quem sabe, para conduzir um outro radialista, um outro artista, um outro cantor, que como ele terá o seu corpo atirado à terra, numa cova rasa e fria.
Morreu Aristeu Queiroz. Uma página da história do rádio feirense foi rasgada, de um livro cheio de personagens, uns mortos, outros vivos. Já não se ouve mais a sua voz, e muitos nem sabem que ele existiu. Agora, o vento que ontem atirava pelo espaço o som do alto-falante da “Casa da Louça” parece trazer de volta a sua voz macia e dolente a cantar:
“A vida é assim Pierrot/vamos cantar para esquecer a dor/mostra que o homem não deve chorar/pela mulher que  nunca soube amar”.
Dedicatória
Esta página foi escrita em memória de Clarival Souza, Edson Matos, Osman Monteiro, Raimundo Oliveira e Chico Baiano, saudosos companheiros de uma época feliz do rádio de minha terra. 

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