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Precisamos conversar sobre a saúde mental dos advogados


“A toda hora temos notícias de colegas que se suicidam devido a depressão.”
Essa frase não é minha, mas de Luís Ricardo Davanzo, presidente de um dos órgãos da OAB de São Paulo, a CAASP, responsável por prestar assistência social aos advogados e estagiários.

Em sua última edição, a Revista da CAASP trouxe a notícia de que seria desenvolvido pelo órgão um trabalho minucioso sobre a saúde mental da advocacia, uma das classes que mais sofre com doenças decorrentes de stress e outros transtornos psicológicos, segundo ressaltou o redator.
Já tinha lido alguma coisa sobre o assunto há algum tempo atrás, e não é novidade pra ninguém que o número de advogados que não se sentem realizados ou, no pior dos casos, estão completamente frustrados e desanimados com a profissão é cada vez maior.
Mas, pesquisando um pouco mais, percebi que estamos falando de uma verdadeira epidemia.
Trata-se de uma enorme massa de advogados que acordam, vivem e trabalham sob os efeitos de antidepressivos, ansiolíticos e outras drogas de tarja preta, sem falar nos aliviantes estomacais.
Recentemente me deparei com esses stories em um perfil do Instagram. Neles - nos stories -, pelo que entendi, advogados do Brasil inteiro que seguiam o perfil compartilhavam fotos dos remédios que haviam tomado naquele dia, antes ou durante o trabalho. Todas as fotos tiradas em ambientes de escritório, por sinal.
Essa situação parece ter sido cômica, e o dia a dia do advogado rende incontáveis memes nesses perfis zueira da advocacia da depressão, mas a realidade sem filtros e edições sobre o assunto não tem a menor graça.

Rir para não chorar

Causas com objetivos estritamente financeiros e que te obrigam a deixar de lado seus valores pessoais, falta de reconhecimento, excesso e desvalorização do trabalho, competitividade, concorrência, prazos e pressão por resultados, além da dificuldade em cobrar e receber honorários.
Essa realidade te parece familiar?
E por falar em família, os encontros de finais de semana e confraternizações acabam sendo uma consultoria gratuita e ininterrupta sobre diversos problemas que não são seus, camuflando-se numa espécie de sabatina sobre assuntos que você nem sempre sabe, mas se vê obrigado a saber. Afinal, você é o advogado da família.
Parece que os advogados não se desligam nunca do trabalho, e essa onda do "eu consigo" e "vou vencer" tem gerado um aumento significativo de transtornos psicológicos, ansiedade e depressão.
Para o filósofo Byung-Chul Han, somos a Sociedade do Cansaço. Nesta sociedade, as pessoas estão se cobrando cada vez mais para apresentar resultados e, paradoxalmente, em uma época onde poderíamos trabalhar menos e ganhar mais, essa autocobrança gera um efeito inverso no qual nos submetemos a trabalhar mais e a receber menos.
Não à toa, muitos advogados reclamam do excesso de trabalho e, ao mesmo tempo, dos honorários baixíssimos e competitivos.
Nem sempre a gente consegue lidar com tudo. Aliás, pelo que li na matéria que mencionei no começo do texto, muitos advogados, de maneira definitiva, não estão conseguindo.

Alegria, felicidade e sucesso

O presidente da CAASP ainda acrescentou em seu discurso:
"Precisamos trazer alegria e felicidade aos advogados."
Alegria e felicidade, palavras em voga quando o assunto é trabalho. Não podemos nos esquecer do sucesso, que sempre acrescentamos aos nossos anseios de vida e objetivos profissionais. É o que todo mundo busca, é o que todo mundo quer, é o que todo mundo trabalha para ter.
E eu não vejo problema nenhum nisso. Faço parte desse grupo também.
O problema é quando não temos dentro de nós um conceito claro e seguro do que seja alegria, felicidade e sucesso. Geralmente, nos comparamos com o resto do mundo pela tela do celular e elegemos um conceito disso a partir do que vemos, não do que somos ou queremos.
O resto do mundo do qual falo é apenas um: esse feito de ideologias, grifes, objetivos e cronogramas de alcance de alvos e bens materiais. Sim, o mundo do qual falo é esse ente sem dono humano aparente, mas capaz de controlar nossas decisões e influenciar boa parte das nossas escolhas, dando-nos a ilusão de livre arbítrio.
Vivemos ansiosos sobre o que e como vamos fazer para conseguir um monte de coisas, e depois ficamos deprimidos com a escravidão que toda essa quinquilharia e status nos trazem, sem contar a preocupação de imaginar perder aquilo que conseguimos e ficar sem dinheiro.
Quem lê meus textos e conhece a minha história já percebeu o tom leve no qual falo sobre o meu trabalho e vivo a minha vida. Mas isso teve um preço pra mim, como tudo na vida. Na verdade, foi parte de um plano de não fazer parte da estatística dos que trabalham sob efeito de ansiolíticos e antidepressivos.
Enquanto a maioria das pessoas estudava formas de ganhar mais dinheiro, eu procurava encontrar maneiras de não precisar tanto dele. Meu primeiro passo foi dispensar o escritório e trabalhar em home office.
Aos poucos fui percebendo que as coisas mais importantes para mim não eram tão dispendiosas quanto eu imaginava. Isso me deu segurança para dizer não às causas com as quais eu não queria trabalhar e aceitar aquelas que me eram mais interessantes. O que chamam de advocacia artesanal. Consequentemente, com a agenda de prazos e obrigações mais livre e fazendo meus próprios horários, comecei a estudar sobre outros assuntos, comomarketing de conteúdo, e desenvolver outras habilidades, como a escrita, por exemplo.
É uma questão de escolhas, mas aprender a viver com menos deixou meu dia a dia mais leve e feliz. Além disso, as coisas novas que eu aprendi estão me trazendo o que, para mim, considero um sucesso.

Viva o hoje

Eu poderia terminar esse texto dando X dicas do que você deve fazer para vencer a ansiedade ou a depressão, mas seria vago demais não conhecendo você nem a sua realidade. É um tema profundo e que envolve questões mentais e também fisiológicas, por isso, às vezes, o melhor remédio é procurar a ajuda de um profissional ou mesmo um ombro amigo.
O que posso te dizer é que você não está sozinho (a).
Muito do que penso hoje se deve, em parte, aos escritos de Henry David Thoreau registrados no livro Walden. Em 1845, Thoreau deixou a cidade e foi para a mata, a fim de viver deliberadamente e enfrentar apenas os fatos essenciais da vida.
Veja o que ele escreveu:
Simplicidade, simplicidade, simplicidade! Tenha dois ou três afazeres e não cem ou mil; em vez de um milhão, conte meia dúzia… No meio desse mar agitado da vida civilizada há tantas nuvens, tempestades, areias movediças e mil e um itens a considerar, que o ser humano tem que se orientar – se ele não afundar e definitivamente acabar não fazendo sua parte – por uma técnica simples de previsão, além de ser um grande calculista para ter sucesso. Simplifique, simplifique.
Essa frase sempre teve um sentido muito profundo pra mim.
Assim como Thoreau, também decidi viver em contato com a natureza. Escrevo de um sítio onde moro há um ano e quatro meses, e essa experiência tem me proporcionado grandes aprendizados sobre a vida.
Sempre observo os pássaros voando livremente no fim da tarde. Nunca encontrei um que tenha morrido de inanição ou que estava preocupado com o dia de amanhã.
Nessa época em que estamos inquietos demais sobre a vida, talvez um bom começo para se viver melhor seja simplificar um pouco as coisas, aprender a viver com menos e não se preocupar com o dia de amanhã, por mais que isso pareça uma irresponsabilidade da sua parte.
É inútil se preocupar com o dia de amanhã!
O "hoje" é único bem que, de fato, possuímos.
Publicado originalmente em pedrocustodio.adv.br
E aí? Gostou desse texto? Como eu disse, é um tema profundo e muita gente está passando por isso. Você tem algo a acrescentar que poderia ajudar? Adoraria saber. Comente aí.

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