Retomada “frágil, lenta e gradual” será atingida em cheio pela greve

Vendedores com vegetais na Ceagesp no último dia 24 de maio (Rodrigo Capote/Bloomberg)


Exame - A economia brasileira já não estava brilhando e sofreu um novo baque.

Previsões para o PIB do ano caem abaixo dos 2%; greve derruba produção e confiança de consumidores e investidores.


Este é o diagnóstico feito por economistas a partir do Produto Interno Bruto (PIB) divulgado nesta quarta-feira (30) pelo IBGE e dos impactos da greve dos caminhoneiros.

Consultorias e instituições estão revisando para baixo as suas projeções de crescimento em 2018:
Antes
Depois
Goldman Sachs
2,30%
2,00%
Ibre/FGV
2,30%
1,90%
MB Associados
2,50%
1,90%
Austin Ratings
2,80%
2,30%

1º trimestre
O PIB do 1º trimestre cresceu 0,4% em relação ao anterior e 1,2% em relação ao mesmo período de 2017. Ou seja: dentro das expectativas, mas que já haviam esfriado nas últimas semanas.
“O crescimento pós-recessão, em geral mais rápido, está lento e gradual. Tanto consumo quanto investimento, os dois principais motores, estão fracos. Estamos muito longe de recuperar tudo que perdemos”, diz Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (IBRE/FGV).

O consumo das famílias, responsável por 70% do PIB, cresceu pela anualmente  quarta vez seguida.

É um reflexo de inflação baixa, queda dos juros e melhora do crédito, limitada pelo spread (diferença entre o custo de captação dos bancos e a taxa efetivamente cobrada ao consumidor final).

Mas a recuperação do mercado de trabalho é muito tênue e segmentos importantes como a Construção seguem em queda.

“A demanda final vem desacelerando há três trimestres. Tirando a supersafra do começo de 2017, o resto continua bem devagar. Indústria e Serviços foram medíocres, com alta trimestral de apenas 0,1%”, diz Alberto Ramos, chefe de pesquisa macroeconômica para América Latina do Goldman Sachs.

O cenário internacional também ficou mais complicado recentemente com maior expectativa de altas de juros nos Estados Unidos, o que torna outros ativos menos atrativos em comparação. A MB verificou desaceleração recente do crescimento econômico em vários países no começo do ano.

Greve
O dado do 1º trimestre já nasceu velho, e a dúvida agora é sobre o impacto que a greve dos caminhoneiros terá no 2º trimestre em diante.

“A paralisação não gera apenas impactos de curto prazo – ao reduzir, na prática, o número de dias úteis no 2º tri –, mas também efeitos mais persistentes e deletérios no estado de ânimo dos agentes”, escreve Bráulio Borges, economista-chefe da LCA Consultores, em relatório.

Há efeitos direitos de perda de produção, calculados em R$ 50 bilhões até agora, de atividades não realizadas por causa da falta de transporte e de alta da inflação com o desabastecimento.

Mas também há efeitos indiretos de desvalorização do real e de empresas como a Petrobras, curva de juros mais acentuada e uma posição mais defensiva tanto de consumidores quanto de investidores.

“A greve ampliou muito a insegurança. O que aconteceu paralisa qualquer decisão e para o investimento é mortal, além de termos uma eleição ainda mais incerta”, diz Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados.

Ninguém fala em volta da recessão, e sim na intensificação de um cenário que começou a se desenhar em maio do ano passado, com as evidências de corrupção do presidente Michel Temer.

O governo mais fraco perdeu a capacidade de passar reformas e tem pouca legitimidade para gerir o conflito distributivo. Isso estimula que grupos busquem vantagens, algo fatal diante do tamanho do rombo fiscal.

“Quando se pega de um lado, se tira de outro. É complicado dar mais benefícios pois não há espaço no Orçamento mas a sociedade, pelo descrédito com a classe política, tem dificuldade de ver isso. A preocupação é com a sensação de soluções fáceis e saídas populistas”, diz Silvia.
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