Eu respondo dúvidas jurídicas, qual o problema?

Informar o cidadão sobre seus direitos e deveres é um dever. Como isso reflete positivamente na advocacia?



Para muitos profissionais da advocacia é difícil entender por que uma pessoa - mesmo sem ter de fato uma doença - paga por uma consulta médica sem pestanejar, mas resiste em pagar uma consulta jurídica.

O resultado de uma consulta com advogado é o mesmo de uma consulta médica: apresenta soluções estratégicas que se aplicam a um problema concreto que o cliente tem. E todo profissional precisa ser remunerado por isso. No caso do médico, um paciente que se recusa a se submeter a um tratamento prescrito não vai deixar de pagar pela consulta.
A pergunta que fica é: por que clientes não valorizam a consulta com um profissional do direito, mais precisamente o advogado?

Nem toda dúvida é uma consulta

Normalmente quem vai ao médico sabe que precisa dele. Sente uma dor ou, mesmo que não sinta nada, quer fazer uma revisão e se certificar de que não tem uma doença (por razões genéticas ou epidêmicas, por exemplo). Acontece que ela tem informações prévias sobre o que pode ser o problema e quem deve procurar.
Partindo desse pressuposto, há uma diferença entre sanar uma dúvida e fazer uma consulta.
Um médico, contador, advogado, nutricionista ou psicólogo é convidado para ir a um programa de televisão e responder perguntas enviadas pelo público. Para você, isso é consulta?
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Acredito que o cidadão-médio concorde que não, isso não é consulta. É informação, ele está sanando uma dúvida.
Dúvida pressupõe uma deficiência de informação. Sem acesso a um conhecimento prévio ou uma percepção concreta, uma pessoa não tem consciência de um problema e está impossibilitada de tomar uma decisão.
Para facilitar o entendimento eu vou considerar que a percepção de um problema pode aparecer de duas formas diferentes:
  • Objetiva/empírica. Está mais ligada às áreas de saúde ou físicas. Eu sei quando tenho uma dor, quanto tenho uma tosse com catarro ou seca. Sei o sintoma (problema), sei que posso ter alguma doença, então vou ao médico com essa informação empírica (dada pela experiência). A mesma lógica se aplica quando o encanamento quebrou. Eu sei que preciso de um encanador.
  • Subjetiva/informacional. em áreas mais abstratas como o direito, por exemplo, eu nem sempre sei que tenho um problema e como posso resolvê-lo. Eu preciso descobrir se isso é realmente uma questão e qual o profissional habilitado para resolvê-la (ex.: abri uma empresa e preciso regularizar questões fiscais, como proceder? qual o profissional mais indicado: contador ou advogado?).
Consulta está no nível estratégico, é o primeiro passo para a solução de um problema. Quando eu vou ao médico eu não faço perguntas superficiais e genéricas como "o que é tuberculose?". Apresento um sintoma e quero saber o que o está causando e como saná-lo. Sei que o médico é o profissional adequado e ele dará toda a orientação, pedirá exames, receitará um tratamento. Ainda que seja uma consulta de check-up, depende dele a requisição técnica e o acesso às informações. Ainda que eu não aceite o diagnóstico, a consulta será paga.
Vamos dar exemplos:
Saúde
  • Problema: Tosse com secreção, o que isso pode ser? Isso é grave?
  • Informação (alternativas e possibilidades): Tosse com catarro é um dos sintomas da pneumonia. O médico é o profissional adequado para diagnosticar e tratar.
  • Solução: Uma consulta para diagnóstico e tratamento.
Direito
  • Problema: Cedi a laje da minha casa para o vizinho construir, o que devo fazer para regularizar?
  • Informação: O proprietário pode conceder a o direito de superfície do seu terreno por meio de escritura pública registrada no cartório de registro de imóveis.
  • Solução: Dirigir-se ao cartório para fazer a escritura pública ou consultar um advogado (ou Defensoria Pública) antes, caso sinta a necessidade de um contrato específico para ter mais segurança.
Direito (outro exemplo)
  • Problema: Estou montando um negócio com mais dois amigos. Como posso manter isso de forma segura?
  • Informação: É imprescindível a redação e registro de um Contrato social. Um advogado especialista em Direito de Empresa é o profissional adequado para estruturar e redigir este instrumento.
  • Solução: Consulta e contratação de um advogado para redigir o contrato da melhor maneira.
Você deve notar que as áreas mais quentes e movimentadas do direito são Direito de Família (divórcio, pensão...), Direito do Consumidor (negativação indevida, atraso na entrega do produto...) e Direito do Trabalho (reclamação trabalhista, FGTS, férias, assédio...). Coincidência? Não. Informação acessível: além de sempre existir alguém conhecido que passou pela mesma situação, há sempre alguém na televisão falando sobre esses temas.

Como as pessoas tiram dúvidas?

Acessando informação útil. Simples assim. É por isso que existem programas de televisão sobre saúde, que há campanhas de conscientização sobre epidemias, distribuição de panfletos informativos sobre doenças e etc.
Um médico convidado para participar de um programa de televisão não está fazendo uma consulta, está tirando uma dúvida (levando informação) e tem uma recompensa muito boa por isso: visibilidade. Ele está construindo autoridade em sua área de atuação.
No mundo jurídico são raras ações de informação. Alguns advogados aparecem na TV e sempre tratando dos mesmos problemas.
Quando falamos em internet, um dos principais meios usados para encontrar e contratar um advogado atualmente, é impressionante a falta de conteúdo informativo de qualidade produzido por profissionais do direito.
Para deixar mais claro, vamos voltar aos problemas de saúde… Se eu pesquiso no Google, por exemplo, o termo “tosse com catarro” (eu sei, é nojento!) olha o que aparece como resultado:
Por favor, abra qualquer um desses artigos. Veja a profundidade de cada um deles. Você considera que isso vai substituir a necessidade de um médico? Acho que não.
Agora veja. Quando eu, tendo uma tosse com catarro, descubro que o que posso ter é uma pneumonia e pesquiso “pneumonia” no Google, aparece o seguinte, ao lado dos resultados:
       
Uma pergunta. Você já viu alguma dessas caixas informativas com conteúdo jurídico? Por que não há tantas publicações jurídicas completas e didáticas como esse primeiro link do resultado da pesquisa?

Falta empatia, falta informação

Sim. Falta empatia na produção de conteúdo jurídico. Empatia é a capacidade de sentir o problema de outra pessoa na pele.
Estou há 4 anos lidando com informação jurídica e posso falar sem medo de errar: é raro encontrar boas publicações de direito.
Profissionais do direito não escrevem de forma amigável porque dificilmente se colocam no lugar de quem realmente tem um problema. Há uma cultura de escrita impregnada com jargões e tecnicismos. Isso funciona para se destacar na academia ou nos círculos profissionais, mas ao escrever pensando em informar leitores é preciso muito mais. É preciso ter objetividade.
Uma publicação empática tem alto potencial porque informa o leitor e satisfaz sua necessidade. Quanto melhor e mais claro, mais um conteúdo é acessado e lido.
Veja esses exemplos:
Essas duas publicações tiveram como ponto de partida dúvidas reais. O primeiro resolve o problema de quem desconhece o procedimento de divórcio. O segundo responde a uma dúvida sobre a diferença entre termos do direito tributário, muitas vezes usados como sinônimos.
Assim como os artigos médicos que mostrei antes, eles tocam problemas específicos e são objetivos. Usam a linguagem adequada para os seus públicos e, muito importante, não abusam de autopromoção e propaganda intrusiva.
Ao escrever, precisamos guardar esta regra: sempre pense na persona que vai ler e quais dores ela tem. E isso vale para artigos escritos por advogados para advogados também.
Assim como aquele artigo da pneumonia, devemos nos aprofundar no assunto o suficiente para atingir o objetivo proposto. Lembrando o seguinte: profundidade não é tamanho, é o nível adequado de informação para que um objetivo seja alcançado, respondendo-se a tópicos específicos.
No caso da pneumonia, os tópicos escolhidos foram:
  • Sintomas
  • Causas
  • Tratamento
  • Complicações
  • Diagnósticos
Caso o assunto de uma publicação fosse divórcio, os principais pontos a serem abordados seriam, por exemplo:
  • Custo
  • Tipos
  • Onde fazer
  • Documentos necessários
O importante é: partimos de um problema, dividimos em tópicos e sub-questões e respondemos uma delas de cada vez.
Se a informação jurídica produzida pelos milhões de advogados seguissem esses princípios e estivessem bem estruturadas, poderíamos ter mais pessoas informadas, além de uma "caixa informativa" do Google para cada problema jurídico, por exemplo.

Como difundir informação jurídica relevante reflete na vida do advogado?

  • Clientes melhores, seguros e decididos: hoje, há pouca informação relevante e acessível sobre direitos. Pessoas informadas têm mais segurança no momento de adquirir um produto ou contratar um serviço. Quanto mais difusão de informação sobre problemas, como e com quem resolvê-los, mais pessoas se sentirão seguras para decidir contratar um advogado.
  • Revitalização da imagem e a confiança na advocacia: advogados têm estigma de mercenários. Muito desse estigma vem da mentalidade de que eles fazem tudo por dinheiro. Ao difundir informação útil e relevante, as pessoas passam a dar mais credibilidade à classe e ao seu papel social.
  • Estabelecimento de autoridade profissional: publicar artigos informativos, além de não ferir o Código de Ética da OAB, educa as pessoas e é uma ótima estratégia de marketing. A sua imagem se destaca ao passar autoridade em um assunto ou área de atuação.
  • Superação das barreiras geográficas: considerando que uma publicação relevante poderá aparecer entre os principais resultados do Google e atingir milhares ou milhões de leitores, não há limites geográficos para alguém conhecer o seu trabalho. O céu é o limite.
Eu me deparo diariamente com comentários do tipo: "advogado não é pedagogo da sociedade", "quer tirar dúvida de graça? então vá pra Defensoria ou procure na internet", a"lei está aí, de graça para todos". Esse tipo de afirmação, além de passar uma imagem de antipáticos e mercenários para os advogados, tem alguns problemas.
Primeiro, Defensoria é um serviço público; nós, cidadãos, remuneramos os defensores, eles não trabalham de graça e é um desrespeito afirmar isso. Segundo, como é possível encontrar informação útil na internet se não produzimos conteúdo de qualidade? Terceiro, a lei não basta, ela é complexa e usa linguagem distante da realidade da maior parte da população.

Concluindo

Os “consumidores” estão mais exigentes. O trecho de uma matéria do Transformação Digital traduz muito bem isso:
“O consumidor não está minimamente disposto a gastar tempo com narrativas descontextualizadas da sua necessidade imediata — nunca esteve, mas muito menos agora. Por isso, é preciso garantir acesso fácil ao que ele deseja no momento certo e independentemente do canal usado.”
Talvez você, no seu diaadia, encare um número alto de "dúvidas" e fique se perguntando por que elas nunca passam disso. A resposta é que sem informação é muito difícil tomar uma decisão. É frustrante para qualquer profissional atender pessoas que não conhecem a dimensão de seu problema e que desvalorizam as estratégias e alternativas de solução apresentadas. Acredito que todos queremos o cliente maduro, informado o suficiente para tomar uma decisão, afinal, nosso tempo é precioso. Por isso investir em informação de qualidade, por qualquer meio, não deve ser coibido.
Quanto mais acesso à informação de qualidade os cidadãos tiverem, mais eles terão consciência de seus problemas e de como é trabalhoso resolvê-lo. O profissional inteligente usa o seu conhecimento para difundir conteúdo relevante e aproveitar para construir sua autoridade.
Quem valoriza a si como profissional, seu tempo e seu trabalho não guarda segredos.
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